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segunda-feira, 8 de março de 2021

As indelícias de não dizer não

Me lembro, como se fosse ontem, que tudo isso aconteceu. Era um sábado. Daqueles sábados em que faz um calorzinho gostoso, que convida a gente a passear por aí, que torna ficar em casa algo extremamente desagradável. Mas era a fase final do mestrado. Tanta coisa para escrever. Por que eu deixo tudo sempre para a última hora? Bom, se tem que fazer, tem que fazer. A carreira acadêmica me anima bastante, preciso terminar o mestrado bem para conseguir entrar no doutorado. Uma coisa somente segue a outra naturalmente no caso de eu realizar um bom trabalho. Imagina qual orientador ia querer continuar comigo, por um casamento de mais longos quatro anos, se o mestrado parecer uma canoa furada? E que tipo de incentivo se pode ter para se manter em casa durante um dia quente e lindo do que outra pessoa que precisa ficar em casa também, realizando a escrita de seu trabalho?

Combinei, então, com minha amiga Patrícia, que iríamos fazer uma imersão nos estudos. Enquanto eu pesquisava e escrevia sobre comunidades intencionais na América Latina, ela pesquisava e escrevia o doutorado dela sobre problemas no sistema de saúde nacional. Quando a gente cansasse do nosso trabalho, trocaríamos. Ela lendo o meu e eu lendo o dela, veríamos se as ideias estavam bem ajambradas, poderíamos até sugerir continuidades. E descansaríamos das nossas próprias escritas. Um plano primoroso, um ganha-ganha. E assim fizemos, pelo decorrer de horas e horas daquele sábado de verão. Capítulos iam ganhando forma, em páginas e mais páginas que se anunciavam e brotavam na nossa cabeça.

Já no fim da tarde, a fome bateu. Confabulamos. Não seria interessante ir para a cozinha preparar alguma coisa. Isso levaria tempo e a despensa estava vazia. Decidimos caminhar para comer algo, mas onde? Naquela época eu ainda morava num pequeno apartamento que dava para o elevado da Nove de Julho, ali perto da praça 14 bis. Ela não tem nada de uma típica praça, arborizada, com banquinhos, talvez até espaço pra dominó, damas. O elevado é um monstro de concreto com um ponto de ônibus, e na parte de baixo é mais concreto e rua. São carros por cima e por baixo, barulho e cheiro ruim. Definitivamente não é um dos meus lugares favoritos, mas o aluguel é muito em conta. Não tem muito comércio aberto por ali aos finais de semana. A escolha ideal seria comer alguma coisa na praça de alimentação do shopping Frei Caneca. Ou Gay Boneca, como foi carinhosamente apelidado pelos frequentadores, em sua maioria jovens gays que moram nos bairros do entorno. É um dos vários lugares da cidade em que os casais homoafetivos andam de mão dadas sem muita preocupação. Como a Patrícia tinha algumas restrições com o consumo de carne, ela poderia comer algo vegetariano e eu comeria qualquer coisa. Havia tantas opções na praça, era só escolher o que a fome pedisse. Mas não. Por algum motivo (inexplicável, em retrospecto, devo admitir), escolhemos comer no Habib’s da Augusta. Curioso que hoje, ao me lembrar de tudo, já fico cansado apenas de pensar que teríamos que subir a escadaria de acesso da Nove de Julho à rua Frei Caneca, subir a rua todinha até a Paulista, uma ladeirinha de dois quilômetros, mais ou menos, contornar o Conjunto Nacional e chegar ao nosso destino. Mas acho que o aborrecimento de ficar enfurnado nos deu uma motivação extra de caminhar e conversar. Afinal, tem coisa melhor que a procrastinação para que a gente faça pequenas loucuras no dia a dia, justificadas e chanceladas? Nos vestimos, porque o dia estava tão quente que a gente estava trabalhando praticamente sem roupa. A Pat colocou um vestidinho de chita, curto, mas bastante verão. Não sei se era bem chita, mas era aquele tecido leve, que não amassa. E era de bolinhas. Eu coloquei uma camiseta de algodão e uma bermuda, daquelas menores que os jogadores usam para praticar esportes. Gosto de ver minha coxa aparecendo, acho uma parte bonita do meu corpo. Quem olhasse a gente ia pensar que havíamos acabado de sair da praia. Chinelos, cabelos bagunçados. Mas quem precisava de mais do que isso? Começamos nossa jornada por volta de umas 17h. O sol estava baixo, caminhando para o poente. A gente não ia conseguir ver o sol sumir por causa dos prédios. Talvez alcançássemos a Paulista a tempo de vislumbrar o adeus do astro-rei por entre as silhuetas dos prédios, mas vocês já devem estar imaginando que, como Drummond bem nos avisou, haveria uma pedra no meio do caminho.

Passamos pelo shopping, seguimos pela Frei Caneca e, na esquina com a Peixoto, há um bar, carinhosamente chamado de Bar da Loca. Não que a dona fosse maluca. Ele tinha esse nome porque era colado a uma das casas noturnas lgbt mais tradicionais de São Paulo. Se o bar tinha outro nome, acho que ninguém sabia. Era o estigma da (boa?) vizinhança. Muitas pessoas aproveitavam o gostoso do dia para tomar cerveja, e eis que uma mesa na rua tinha umas 8 garotas. Elas chamaram a Pat e ela as reconheceu. Ois e ois, apresentações, puxa uma cadeira e senta aí. A gente se olhou, conversamos sem trocar palavras. A Tina (apelido fofinho da nossa amiga da onça, procrastinação) deu uma sambadinha, uma risadinha demoníaca, e isso serviu para que a gente pedisse duas cadeiras e ficássemos uns minutinhos. A fome batia, mas a gente não ia pedir porções no bar. Então a fome era inflacionada, não tínhamos almoçado, tão focados estávamos. Seres gregários, porque não bater um papo e compartilhar com as amigues nossos dramas tão típicos da pós-graduação? Nos espalhamos e começamos a conversar. Risadas, mais dois copos, por favor. Só uns golinhos de cerveja. Junto com as meninas, havia um rapaz. Ele era moreno, cabelo curto e era bem baixinho, devia ter 1,65, no máximo. Perguntou meu nome, onde eu morava, aquelas informações básicas todas. Ele era bastante irreverente, contava umas histórias que nos faziam rir. Uma certa hora, levaram uma cadeira da mesa e ele, que se movia para lá e para cá, ficou sem ter onde sentar. Perguntou se poderia sentar no meu colo. Não é todo dia que estranhos pedem para sentar no nosso colo. Deixei, porém de uma maneira respeitosa, quase que sobre o joelho. Rimos mais. As meninas alegres, poderíamos passar horas ali, bebendo e rindo. Mas olhei para a Pat. “Amiga, está na hora de ir embora.” Pegamos uns trocados, para contribuir nas cervejas que tínhamos tomado e começamos a nos despedir. O rapaz, Bruno era o nome dele, ficou chateado: “Vocês já vão embora?” Havia algo incomum na forma dele interagir com a gente. 

“Sim, temos que comer, voltar para casa e seguir nossos estudos.”

“Puxa, mas eu gostei tanto de vocês. Posso ir comer com vocês?” Ele tinha um jeito bastante sinestésico de falar, ele apertava o braço, apertava o ombro, passava a mão. Não era meu tipo preferido de atitude, mas não seria o chato que pede para não ser tocado.

Daí, não sei se foi a minha gentileza natural, o calor, a fome, a cerveja no estômago vazio, o charme quase infantil dele, todos juntos ou nenhum deles que nos fizeram dizer que tudo bem. Sabíamos sobre ele o tanto que você, pessoa leitora, mas se era amigo das meninas, estava tudo bem. Deveria ser alguém confiável. E ele não queria ir para casa. Seria apenas a janta e depois cada um para seu lado. E éramos dois e ele apenas um.

“Para onde vocês vão?”

“Vamos no Habib’s da Augusta.”

“Ah, mas o Habib’s é tão sem graça. Posso levar vocês em um restaurante que eu gosto?”

Nos olhamos. Uma das motivações de escolha daquele restaurante era o preço acessível dos itens no cardápio. A gente queria algo prático, rápido e barato. Pós-graduandos não podem ficar esbanjando por aí, não é? Sentia que em meu olhar dizia, amiga, nega, por favor. Isso vai nos atrasar. Mas a boca permanecia cerrada. O olhar dela respondia da mesma maneira, não quero sair do plano. Sair mais do plano. E as nossas vinte páginas de hoje? Mas a boca dela não se movia. Uma completa incompetência telepática. Mas como diz o ditado, é no fracasso alheio que jaz o sucesso dos loucos.

“Olha, não sei.” A dúvida começou a se instalar. Será que a gentileza iria se converter em arrependimento?

***

Ele pediu que a gente o acompanhasse até o shopping para pegar o carro dele e de lá iríamos para o tal restaurante. Perguntamos se era perto porque queríamos poder voltar logo para casa para seguir com os estudos. Horas já haviam se passado e a gente não tinha nem comido ainda! Fomos conversando, mais ele com a Patrícia, que falavam dos mais diversos assuntos e não paravam de falar. Gosto de observar pessoas engajadas em conversas das mais diversas, aprendo bastante ouvindo e me divirto, mesmo sem falar muito.

Quando chegamos ao estacionamento, ele apontou para um carro. Não sou muito versado em marcas e modelos de carros. Na verdade, escolhi ser bastante desconhecedor. Vejo carros como simples máquinas de levar a gente de um lado para o outro, apesar de saber bem sobre a mágica que eles realizam enquanto símbolos de status. Percebi apenas que o carro dele era um carro de grande porte, uma espécie de jipe, e ao entrar, me admirei que os bancos dianteiros e traseiros eram de couro. Achei uma coisa brega e desconfortável, mas comecei a reparar que aquilo era um sinal de que aquele menino era alguém fora do ordinário. Porém, nada na forma como ele estava vestido fazia a gente começar a suspeitar disso. Uma camisa polo, calças jeans e tênis. Além disso, pode ser que aquele carro fosse do pai dele, qualquer coisa do tipo.

“Quero levar vocês no meu restaurante favorito.”

“Como se chama?”

“Spot. Fica na Paulista.”

Olhei para a  Pat e ela, como eu, também parecia desconhecer o tal restaurante. Ela tinha a desculpa de ser de São Bernardo, e não frequentar tanto São Paulo, mas eu, que sempre caminhava pela Paulista, talvez não tivesse tido a atenção chamada para tal lugar. Quantas vezes não havia descoberto que portas despretensiosas se convertiam em lugares bastante interessantes? Para os iniciados, os conhecedores, claro. É algo típico da região. Era necessário sempre algume amigue me convidar e lá estava eu descobrindo o que havia nos recônditos daquele prédio ou casa.

Quando chegamos, ao descer do carro, um choque. O valet do restaurante o cumprimentou e vimos que se tratava de um restaurante super chique.

Havia um gramado com uma fonte ao centro, e em volta vários bancos de pedra. Pessoas bastante animadas, e descoladas, espalhadas em mesas do lado de fora. A primeira coisa que fizemos, Pat e eu, foi nos olharmos de cima a baixo. Apesar de ainda estar bem calor, nossas roupas improvisadas não pareciam fazer jus ao lugar em que estávamos. Foi uma explosão de autoconsciência e de sensação de peixe fora d’água. Já descemos do carro nos desculpando.

“Nossa, mas a gente não sabia que era um restaurante tão chique.”

“Eita, e nossas roupas? Não vão deixar a gente entrar.”

“Não se preocupem,” disse Bruno. “Eu conheço o gerente aqui. Não tem como ele não deixar a gente entrar.”

Antes que a gente conseguisse abrir a boca, realmente, o funcionário que recebia os novos clientes já foi o cumprimentando como a um velho amigo. Ele pediu uma mesa, ao que foi informado que teríamos pelo menos uma hora de espera. Nos olhamos de novo e ouvimos o grito que vinha da distância das nossas pesquisas abandonadas. E dos nossos estômagos também, tão desamparados quanto. Seria bastante indelicado naquele ponto se despedir e correr para o Habib’s? Teria sido talvez uma decisão importante, mas como nos desprender das amarras de simpatia e boa vontade que aquele estranho parecia ter jogado em nós? E como combater aquela lábia, quase profissional dele, com a gente e com todos com quem ele decidisse iniciar uma conversa? E era um talento quase ninja da parte dele. A gente virava para falar algo sobre a situação e duas frases depois ele já estava interagindo com as pessoas ao redor, um extrovertido quase compulsivo. E provavelmente consciente dos poderes que tinha. Quase esquecíamos do constrangimento que pesava sobre nós por causa das roupas simplórias, as quais destoavam do dressing code descolado do lugar.

“Vamos tomar grappa?”

“O que é isso?” Perguntamos quase em uníssono.

“É uma espécie de cachaça italiana, tem um sabor bem peculiar.”

“Mas isso não é muito forte pra quem está de estômago vazio?”

“Imagina, daqui a pouco a gente já vai comer. Não esquenta. Traz duas grappas aqui pra gente.”

Ao passo que o álcool ia se misturando com os goles de cerveja tomados antes, somados a uma porção de bruschettas, ambos íamos nos tornando mais alegres e tão falantes quanto nosso interlocutor. As luzes e os sons que nos invadiam de todos os lados, as conversas e risadas, os odores que vinham da cozinha, tudo isso criava uma certa aura mágica que tornava nossa vida fora dali quase que um sonho.

Depois de uns 40 minutos, mais ou menos, fomos chamados para a mesa. O ambiente dentro do restaurante era muito do que se anunciava pela sua parte externa. Os talheres eram de prata, leves como nunca havia sentido, apesar de parecerem maciços. Os garçons passavam apressados e os pratos pareciam convidativos pelas fotografias. Sabe aqueles pratos gourmet, decorados, para se comer com os olhos, além de comer com a boca? O medo que deu foi que por serem meio artísticos, esses pratos iam demorar. Lembrei da boa hora que esperei uma vez que tinha ido num restaurante francês no Arouche. A fome era tão grande quanto diminuto ficava o senso de responsabilidade. Mas nem sempre temos chance de ter conversas tão interessantes.

A Pat pediu uma massa com vegetais, cogumelos, gengibre e amêndoas. Eu pedi um filé de truta, com risotto de funghi porcini e portobelo. O Bruno pediu um steak béarnaise à manteiga, vinho branco e hortelã. E uma garrafa de vinho. Será que ele estava tentando nos embebedar?

Seguimos conversando. Eu ficava um pouco abismado com a quantidade de assuntos e a maestria como ele navegava por eles, fazendo perguntas, contando pequenas anedotas, dizendo o que a gente nem sabia que queria ouvir. Olhei no meu relógio mental, porque o de pulso tinha ficado em casa, e achei que era hora de fazer o inverso de colocar a vassoura atrás da porta: em vez de expulsar as visitas de casa, precisávamos a gente ir para lá.

Sem espaço e já meio desesperados pela noite que corria lenta e constante como um rio escuro, sugeri pedir a conta. A Pat me olhou com admiração, mas também não parava de conversar. Só aceitaríamos uma carona porque caminhar de volta para casa levaria mais tempo. A conta veio, e deu mais ou menos uns 350 reais. Tudo bem que dividindo daria uns cento e pouco para cada um, mas não era para gastar vinte, comprando umas 4 esfihas e um suco? Meu estômago travou. Por que ele não fez isso antes, quando eu precisava? A mente vagava entre contas e cálculos. Essa frugalidade ia voltar para bater na minha bunda.

De uma maneira meio natural, o Bruno pegou a conta da minha mão. Ao mesmo tempo, ele dizia - “Eu convidei, deixa que eu pago, né?” Ouvir isso parecia incrível, e os cálculos começaram a se quebrar como vidro em caquinhos. Porém, uma sensação de culpa, de abuso de limites também se instalou, e a Patrícia agiu sobre ele antes de mim. “Imagina, divide por três.” Muito justa. Ele insistiu. Ela insistia. Tive que intervir com o proverbial chute na canela por baixo da mesa. “Deixa o moço pagar, uai. A ideia de vir aqui foi dele.” Saiba receber as dádivas da vida. A generosidade desinteressada é quase um dodô nessa cidade caótica.  E assim saímos, meio envergonhados, meio agradecidos.

O papo do Bruno começou a mudar. Ele perguntou se podia nos deixar em casa, apesar de querer que eu fosse com ele para casa dele, porque ele estava sofrendo o término de um relacionamento, e eu era uma pessoa tão legal, seria legal conversar por mais algumas horas. Nesse momento, a lucidez, que parecia ter tirado férias, deu o ar da graça. Ele não ia querer apenas conversar. Mas não havia energias sexuais envolvidas no que falávamos. Ele disse que tinha parado de tomar o antidepressivo, porque ele atrapalhava o efeito do ansiolítico. Aquilo começou a parecer um papo meio estranho. Mas a culpa de ter feito o menino pagar tudo apareceu. Que timing! A Patrícia estava com a voz embargada e uma moleza. Imaginei que a comida tinha neutralizado nossa bebedeira anterior. “Onde você mora?”

“Aqui pertinho na Aclimação. Será que podemos deixar sua amiga na sua casa e daí você fica um pouco lá comigo e vê um filme?”

“Daí você me traz de volta, mesmo se for tarde?”

“A noite é uma criança, mas sim, trago sim.”

Sugeri que ele esperasse no carro, eu subiria com a Patrícia, que naquele momento tava bem cansada. Ele quis ir junto. De novo, qual o grande problema de levar um estranho que você acabou de conhecer para sua casa? Ele já tinha falado tanto dele que era praticamente um amigo de anos.

Subimos, deixei a Patrícia deitada na minha cama, peguei uma bolsa, na qual coloquei uma blusa e descemos. Devia ser mais ou menos umas nove da noite. Ia fazer companhia para ele até meia-noite, e bem no estilo Cinderela, sem o boa-noite, esperava eu, estaria de volta em casa e poderia escrever umas duas páginas madrugada adentro para dormir com uma leve sensação de algum trabalho realizado.

***

Chegamos ao prédio dos pais dele. Eles haviam viajado, e o deixado cuidar do apartamento. Via-se que cuidava muito bem, levando estranhos recém-conhecidos para lá. Antes tínhamos passado numa conveniência para comprar cerveja. Eu já estava cansado de beber, e porque estava indo para um lugar desconhecido, preferia me manter o mais sóbrio possível. Pelo andar da noite, percebia uma certa lerdeza em reagir prontamente.

O apartamento ficava em um prédio do bairro da Aclimação, bairro residencial, ainda que central, um dos redutos da classe média-alta paulistana. Ao abrir a porta, fui tomado de uma leve vertigem. A sala era mais ou menos do tamanho do meu apartamento, havia uma escultura no centro da sala, parecia uma cabeça gigante meio abstrata. Parecia aquela coisa do elefante na sala. Havia quadros que pareciam bem caros pendurados, vários ambientes discerníveis e um corredor levando ao resto do que imaginava ser um daqueles apartamentos nos quais podia me perder.

Acredito que Bruno percebeu minha surpresa, e tomou a minha falta de palavras por um deslumbramento. Ao passo que eu lia tudo aquilo como sinais de riqueza e esbanjamento, me chocava e pensava o que eu tinha ido fazer ali.

A primeira coisa que Bruno fez ao entrar foi pegar uns saquinhos em uma gaveta, rasgar a ponta, fazer algumas carreiras e me oferecer uma para cheirar. Não sou muito moralista com questões de drogas, mas sempre tive uma grande preguiça com drogas inalantes ou injetáveis. Incontáveis vezes neguei e mesmo gostando de experimentar coisas novas, posso dizer que jamais cheirei uma carreira na vida. Recusei de forma educada e mal sabia eu que aquelas seriam as primeiras carreiras de muitas que seriam esticadas naquela noite.

Ele seguia contando mil histórias e conversando, pegou a sacola com as cervejas e abriu a janela. Acho que não comentei ainda que estávamos no 17o andar. Entrou uma lufada de vento, a noite estava agradável. Com uma cerveja na mão, com um cigarro no meio dos dedos da mesma mão, ele usou a outra para se alçar e sentar no parapeito da janela!

“Moço, des...- desce daí, p-por favor.” Minha voz falhava, ao passo que minha vertigem atingia as alturas. Minha perna tremia e eu não conseguia me mover. Comecei imaginar que ele, já tendo bebido tanto, por qualquer erro de cálculo no movimento do ombro, poderia escorregar e cair. É claro que eles iam olhar as câmeras do elevador. Acabou minha vida. Nunca iam acreditar que eu não o havia empurrado com o objetivo de roubar coisas na casa.

“Não se preocupa. Eu tou acostumado a sentar aqui.” Será mesmo que ele estava acostumado ou estava me provocando de alguma forma? Não me lembrava de ter passado tanto medo por osmose há anos.

Pedi com tanta veemência, e com medo, nem queria encostar nele, ele deu um pequeno saltinho de volta para dentro do apartamento. Minha vontade era pegar as minhas coisas e ir embora. Estava realmente brincando com a sorte. 

Deitamos no sofá grande, acho que cabiam umas dez pessoas naquele sofá e ele falou:

“Vamos ver o filme que você disse que veio ver comigo.” Disse isso e pegou um controle remoto. Apertou um botão e em vez de ligar uma televisão, uma tela começou a descer por uma das paredes. E um projetor disparou um facho de luz e ele abriu um sorriso.

Devo ter feito uma careta, porque aquilo, em vez de me alegrar me deixava mais incomodado. Sempre fui um cara bem comedido com grana. Não gostava de comprar supérfluos, não gostava de consumir, na verdade. Por vezes era arrastado por mamãe, por alguma amiga ou namorado para comprar roupa e qualquer outra coisa. Sofria ao fazer mercado. E de repente, aquele luxo todo me lembrava minhas aulas sobre Marx e o valor de uso e o valor de troca. Não que eu fosse profundamente marxista. Mas aquele luxo me incomodava mais do que deslumbrava. E inconsciente disso, Bruno começou a jogar, na tentativa de me seduzir. Ah, se ele soubesse! Fiquei quieto enquanto ele tentava se enrolar em mim, já me abraçando pela cintura. Começou a falar que sabia que eu tinha ido ali pra ficar com ele e não pra ver nenhum filme.

“Sério, eu vim te fazer companhia e ver filme mesmo, porque você falou que tava mal do término.”

Ele me beijou e eu me deixei beijar. Ele foi dizendo que seria ótimo a gente ir pra Paris algum final de semana próximo, que a gente ia se divertir, e eu pensando que eu tinha aula pra dar, nem sabia se meu passaporte estava válido ou vencido, e que não ia ter meios de ir pra Paris. Que nosso namoro ia ser regado de champanhe e passeios. Ia ficando assustado com o papo, que se misturava com as aventuras que ele tinha com o ex dele, chef de cozinha, o ex modelo, os remédios que ele estava tomando, o antidepressivo, o ansiolítico, e eu pensando, gente, e ele não parou de beber a noite inteira e está agora também na cocaína. E a gente já estava namorando por acaso?

Ele retomou as investidas dele, passando a mão pelo meu corpo. Sempre tive uma grande dificuldade de rejeitar pessoas. Tendo a prestar atenção em qualquer algo positivo que elas tenham e foco nessa caraterística. Me abri para o beijo. Mas não podia me desligar dos eventos que antecediam aquele. Ele, impaciente, descia a mão pelo meu torso e buscava uma ereção inexistente, uma que não fazia a menor questão de aparecer. Tentei me concentrar. Pensar em coisas calientes.

“Desculpa, Bruno. Acho que não vai rolar.”

De repente, ele me odiaria tanto que faria questão de me ver longe o mais rápido possível. Poderia voltar para minha casa e tudo voltaria ao normal. Já era quase meia-noite.

“Tudo bem. Acontece, né? E olha que você nem cheirou uma carreirinha.”

Rimos, meio sem graça. A coisa mais legal daquele momento foi que em vez de sentir vergonha por ter falhado, ter percebido que meu corpo tinha limites, que nem sempre ele iria funcionar, e que tudo bem por isso.

“Acabou o meu pó. Será que você iria comigo comprar mais?” Claro que o pó tinha acabado. Ele não parava de fazer as carreiras e mandar pra dentro. Mas poderia aproveitar esse momento de saída para buscar algo e pedir para ele me deixar perto de casa ou lá mesmo. Peguei minha bolsa e passei a alça pelo pescoço.

Ele pegou a chave do carro, colocou a carteira no bolso e me viu com a bolsa.

“Que isso? Você não vai embora agora, né?”

“Ah, pensei que talvez fosse melhor, já que não deu certo pra gente ficar.”

“Para com isso, queria que você ficasse mais um pouco.”

Pensei que deveria ser mais assertivo. Dizer que era melhor mesmo eu ir embora. Mas não. Por aquela mesma força estranha que tinha me tornado meio aparvalhado a noite toda, me vi colocando a bolsa de volta no sofá e indo com ele para o elevador.

***

Vamos dirigindo e eu preocupado se alguma blitz parasse a gente. Durante a noite toda, o Bruno não tinha parado de beber e cheirar. Será que isso não traria problemas para ele na direção? Parecia que depois do momento na janela, qualquer risco era pequeno e ignorável. Ele foi dirigindo pelas ruas do centro até chegar à região da Paulista. Perto do Parque Trianon, já fechado naquela hora, ele encostou o carro e chamou um moço que estava sentado em um banco de cimento. Ele se aproximou e perguntou se a gente queria fazer um programa. Eu estava no banco do passageiro, mas fiquei tenso e quieto. Por cima de mim, os dois começaram a desenvolver uma conversa, na qual Bruno perguntou se ele tinha pó pra vender, quanto era, de onde ele era.

“Nossa, meus pais estão passeando pela sua cidade.”

“Sério?”

E lá estavam eles, de novo, sendo super amigos de longa data, aparentemente. Só então percebi o modus operandi dele de forma mais completa. Sem que eu nem conseguisse roubar o turno da conversa, ele já havia descoberto que o rapaz não era traficante, mas o irmão dele sim, porém estava sem estoque naquele momento. De alguma forma que nem notei, trocaram telefone e seguimos para outra boca que ele conhecia. Eu só me deixava levar pelo movimento do carro e me perdia na brisa geladinha da noite, ouvindo a voz de Bruno ao fundo, num blablablá ininterrupto. Quando dei por mim de novo, estávamos na rua atrás da minha casa. Se eu tivesse sido mais firme, poderia estar com a minha bolsa, e, num cenário menos otimista, saltaria do carro num momento que ele diminuísse a aceleração. Mas não. Ele chamou um rapaz que estava numa rodinha de pessoas. Dessa vez eles conversaram pela janela dele, e trocaram o dinheiro pela mercadoria. Me senti bastante infrator, e pensei: pronto, não vai rolar mais nada de ruim nessa noite, já chegamos no fundo do poço.

***

“Eu liguei pro Roberto.”

“Quem é Roberto?”

“Aquele cara lá do Trianon.”

“Você chamou um michê aqui?”

“Sim, já que não deu certo de a gente transar, chamei ele.”

“Então vou embora antes de ele chegar. Não quero ter nada a ver com isso.”

“Mas era isso que eu não queria. É meio perigoso eu ficar sozinho aqui em casa com alguém que eu não conheço direito. Você me faz companhia?”

Como se eu fosse um velho amigo, não é mesmo? Assenti, mais por cansaço do que por achar estar fazendo a coisa certa. Era já umas 5 da manhã, e o sol surgia, deixando o céu tingido de uma luz fraca. O moço chegou, o tal de Roberto. Me cumprimentou, uma simpatia. O Bruno me colocou em uma sala menor, adjacente àquela grande sala com a escultura. Ali havia uma televisão. Eles se encaminharam para algum quarto dentro da casa e fiquei ali parado, no silêncio, pensando se minha inação me coroaria com o testemunho de gemidos e sons libidinosos, os quais eu estava com zero vontade de ouvir. Mas a casa era grande, e só ouvia os sons da alvorada. Liguei a televisão e estava na Globo. Por algum milagre, apesar de não ter usado nenhuma droga, estava completamente desperto. E não seria inteligente cair no sono naquele momento. O que eu faria se o Bruno gritasse? E se o rapaz, impressionado com a opulência, decidisse matar o Bruno, eu, e roubar o que conseguisse carregar?

Estava passando Globo Rural. Há anos eu não via esse programa, afinal, que domingo eu estaria acordado naquele horário? E se estivesse, estaria destruído após alguma festinha ou balada. O repórter falava e os bois passavam e eu sentia que tudo aquilo era um sonho, um pesadelo de mau gosto. Ele estava rindo da minha cara?

Ouvi uma porta se abrindo, não havia passado nem uns 20 minutos. Imaginei que eles deveriam ter esquecido alguma coisa. Talvez viessem me chamar para participar. Será que eu iria? Bruno apareceu, enquadrado pelo batente da porta. Estava vestido, e com uma cara de poucos amigos. Acho que foi um dos únicos momentos que vi algum tipo de emoção negativa vazar dele. Mesmo parecendo artificial, ele estava sempre animado e falante.

“O Roberto broxou.”

Fiquei paralisado. O profissional do sexo não conseguiu exercer o seu trabalho? Queria rir, mas percebi que isso não ornaria com o momento. E senti pena também. Acho o sexo algo muito valioso, uma forma de expressão e de comunhão. Ser privado disso era como privar alguém de água ou comida.

“Eita, e agora?”

Roberto entrou, meio sem graça, se desculpando. “Foi muito pó e eu gozei algumas vezes essa noite já, não vai rolar.”

Pensei se mesmo assim Bruno ia pagar pelo programa, mas nem perguntei nada.

Daí, para minha surpresa, o Bruno perguntou se eu o acompanharia por uns momentos. Deixamos Roberto sentado onde eu estava antes, vendo Globo Rural, e fomos por corredores, até que entramos em um banheiro amplo. Achei estranho que fôssemos deixar nosso convidado da noite sozinho na casa. Bruno fechou a porta atrás de nós, abriu uma gaveta. Não sabia nem mais o que esperar. Seria algo para me machucar? Ele saca um consolo, de um tipo que eu nunca tinha visto antes. Eu conhecia aqueles que eram maciços, mas o dele era oco, com um espaço na base para colocar os dedos. Ele pede, com certa reticência, mas sem muita vergonha:

“Me come com isso aqui?”

“Mas e o Roberto? Por que não pedir isso pra ele?”

“Ah, ele tá meio cansado, e como não rolou de ele me comer, achei melhor não pagar nada pra ele, mas não quis pedir isso, senão ele poderia cobrar.”

Isso, eu era mais barato. Nunca tinha usado brinquedos, apesar de ter a curiosidade. Mas estava com libido negativa, se é que isso era possível. Ele abaixou a calça e se colocou na minha frente e eu olhava para o consolo, para aquela bunda peluda parada na minha frente, e me senti um enfermeiro, prestes a fazer um exame. Era como se eu tivesse desmaiado e visse aquela cena ali de fora, como numa tela de cinema. Tentava dar um nome para aquilo que estava acontecendo. Eu não tinha forças para dizer não, mas sentia uma vergonha, uma pena tão grande dele. Tão rico e tão vazio. Precisava se sentir preenchido de alguma forma, por onde quer que pudesse. Fui mecanicamente me movimentando, até que meu pulso doeu. Foi um dos primeiros momentos em que ele ficou silencioso quase a noite toda. Ele dava pequenos gemidos, mas não olhava para trás, e fiquei feliz com a ausência de contato visual. Se trocássemos sentimentos, se ele notasse o quanto eu estava desconfortável ali e se eu notasse o vazio nos olhos dele, talvez aquele momento precário iria ruir.

Fomos interrompidos pelo som do interfone. Coloquei o consolo em cima da pia, ele levantou a calça e falou que era o irmão do Roberto.

“O irmão dele?”

“É que acabou meu pó e ele veio buscar o Roberto também com a moto.”

“Ah, então ele já vai embora? Eu aproveito e vou junto.”

Bruno saiu, atendeu o interfone e pediu para o moço subir.

Subir? Eita, mais um estranho aqui? Mais chances de dar uma grande merda.

O moço subiu, segurando dois capacetes de motociclista. O Bruno pegou a mercadoria dele, cheirou, enquanto o traficante avisava que era pra ele ir com calma, que aquela era da boa. Ele começou então a ter dor de cabeça. Pensei, pronto, agora só faltava isso, a gente ser acusado de ter causado uma overdose no menino.

Enquanto ele melhorava, pediu que a gente ajudasse a limpar o apartamento da bagunça da nossa visita. Tinha pequenos saquinhos jogados por toda a sala, garrafas e latinhas de cerveja. Olhei em volta e estávamos os 3 marmanjos recolhendo lixo pela casa, enquanto o Bruno se recuperava, encostado na parede. 

Tendo recolhido tudo, e vendo que os dois irmãos não iam fazer nada de mal com a gente, eram pessoas tranquilas, apesar de trabalharem na intensa noite paulistana, decidimos descer. O sol já alto e claro, devia ser umas 9 horas da manhã.

O Bruno avisou que as compras da noite tinham quase acabado com o dinheiro dele. Ele teria que ir para o caixa automático tirar o dinheiro da droga nova e da noite com o Roberto. Eu disse que não iria acompanhá-los. Ele disse que seria perigoso. Eu respondi que ele tinha uma sorte grande de se safar do perigo, e com uma determinação retardatária, com minha bolsa já a tiracolo, disse que iria embora.

“Você vai como?”

“Não sei, tem ônibus daqui perto pra minha casa.” Não fazia ideia de como iria, mas me agarrei à vontade de sair correndo dali e voltar para o meu lar e para contar para a Patrícia todas as desventuras daquela noite.

“Olha, eu tenho essa nota de dez reais aqui. Será que dá pra você pagar um táxi até a sua casa?”

Eu tinha dinheiro na carteira. Fiquei de novo paralisado pela “generosidade” dele. Aquela nota ali dançando na minha mão, eu sem saber se dava um soco nele, se me colocava na mesma posição dos moços ali comigo na sala, mas claro, bem mais barato, e pensei, realmente, com tudo o que eu tinha passado, dez reais representava bem o que eu merecia.




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

De lírios - Parte V e final

(continuação Parte IV)...

Ela agora faz parte da confusão... da solidão... do vazio..... do nada.
Olha pra si mesma, um ser patético coberto de sangue e hematomas, e sente muito, se encolhe, sente por ser tão frágil, tão incompleta, tão sem sentido....
Ela se esforça, tenta de todas as maneiras se reconhecer, se pertencer, mas é em vão.
Esta não é ela. Não pode ser. Não é. Os pensamentos desordenados, a cabeça latejando.
Ela quer gritar, se libertar. Inútil. Ela já não tem mais forças, e abraça a si mesma.
Finalmente as lágrimas caem. Rolam por sua face, molham seu corpo numa tentativa inocente de lavar a alma, apagar a dor que a consome, se fortalecer e se recriar.
Ela levanta o olhar como se seus olhos pesassem mil quilos e contempla a luz do sol que cruza as grades. Fixa o olhar e tenta criar forças, se levantar. Ela se recorda do azul e do perfume dos lírios, ele se torna cada vez mais forte, mais real.....
As flores brancas, o campo, o vazio... a dor.... ele.... mas quem é ele? Quem foi? Quando?
Por quê?...... As perguntas atormentam, batem com força, insistentes, porque sim..... Ela volta a abraçar a si mesma, se encolhe, sofre, chora, se aperta, fecha os olhos e implora por paz, implora por um sono eterno. O silêncio é cortante, o perfume mais forte. Ela abre os olhos e
vê um par de asas negras.
Suas asas. Elas batem forte, automaticamente a elevando aos céus, numa velocidade estrondosa, em direção às estrelas. Ela se sente um novo cometa e sente que está voltando para casa. Ainda que sinta a umidade das lágrimas na face, e não consiga afastar do pensamento o cheiro dos lírios que lhe enchem as narinas, ela sente que sua missão terminou e isso a alegra.
Ela voa mais alto, mais rápido, quase não consegue ver as estrelas. Um anjo, uma deusa, vários poderiam ser seus nomes. Ela começa a sentir a humanidade que lhe constituía esvair-se do seu pensamento. Ela não é mais humana, não é mais mulher. Ela aprendeu a lição que ele lhe havia proposto, a grande mente que arquitetou os universos. Ela que não conseguia entender o ser humano, que observava.E não se sentia compelida a agir, ela havia sido humana, uma mulher e sentido em sua essência a dor e o vazio. Mas agora ela sabia, ela havia sido mulher e, por isso, havia concebido. Logo, a dor e o vazio seriam combatidos e eliminados. Só sobraria o cheiro dos lírios. E o amor.

(fim)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De lírios - Parte IV

(continuação da parte III)

Ela sente o frio se esvaindo e o calor vai dando lugar àquela gélida sensação. Porém, ela percebe que não está mais parada. Sente-se em movimento, e o calor vai aumentando. Pouco pode se ver dos arredores, algumas fontes de iluminação esparsas lutando contra a escuridão noturna, como vaga-lumes. Ela sente o calor aumentar e se percebe correndo. Ainda sem entender direito o que se passava, sente medo, um medo primitivo, primata, e ouve como um sino a ribombar em sua cabeça “Corra, corra!”. Ela conhece aquele caminho estranho sinuoso, sente suas pernas fatigadas a levarem para aquele lado, ora para o outro. Ela ouve e percebe que não está sozinha. Ela é a caça. Um, dois lobos a perseguem, rindo como hienas, famintos como leões. Ela decide que logo será alcançada. Procura um refúgio. Fazer-se de morta pode enganar os predadores. Ali, um muro baixo, com o mesmo impulso que trazia da corrida, apóia-se em uma das mãos e joga os pés para o alto. Porém, os pés não encontram o chão conhecido, e ela rola em si mesma, se esfolando toda. Arfando, busca levantar a cabeça, e na penumbra distingue onde se encontra. Trata-se de um jardim. Há alguns metros divisa uma casa, vê as luzes saindo da janela e pensa ouvir gargalhadas, copos. Talvez seja uma festa. Seu corpo vai esfriando enregelado pelo ar da noite, e ela sente dores por todo corpo, provavelmente presentes da queda. Estica a mão e toca em alguns arbustos baixos e ao trazer a mão ao rosto para secar a testa,e se apoiar pra sentar, sente o cheiro de lírios. Nesse instante, ela se sente erguida ao ar. Uma mão invisível, não, mãos invisíveis vão a tateando, a levantam e a afastam daquele momento de alívio. Os predadores a viram escapar, seguiram seus rastros. Ela havia falhado. Ela sente o cheiro de suor forte e masculino, e se vê imobilizada. Enxerga no escuro o brilho maligno dos olhos deles, seus sorrisos e escuta: “Aê, truta, nóis se demo bem!” Sente que não pode mover os braços, pois uma mão de aço as matem presas. Ela geme, se contorce, pensa em gritar, mas nem bem abre a boca e um grito começa a se formar, ela sente outra mão, quente e suja, áspera, contra sua boca. Sente o batom se espalhando por toda a face e o grito preso na garganta. Ela decide arrefecer e percebe que o inimigo já canta vitória certa. Sente mãos por todo seu corpo, perscrutadoras, invasivas. Ela sente e vê sua vontade reduzida a pó e fica a mercê daquelas mãos, daquele cheiro repulsivo, daquele peso contra seu corpo. Seu estomago se contrai e ela quer vomitar. Mas não consegue. Começa a sentir as lágrimas quentes escorrerem, salgando o já inseparável gosto de sangue e batom. Ela se vê invadida, humilhada, e fecha os olhos, para que não seja testemunha daquela atrocidade contra si mesma, e ao lembrar-se do cheiro dos lírios, vai se entregando a um frio, e sente que aquela repulsa vai dando lugar a uma grande paz. Ela já não sente mais medo. Mas ao abrir os olhos, ela não se sente confortável. Outra realidade, outro corpo, que ainda não é o dela. Estica as mãos e sente estar dentro de uma jaula...

(continua...)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De lírios - Parte III

(... continuação da parte II)

Sentiu que havia um papel em sua mão direita. Estava amassado. Ela abriu e não sabia como ela conseguia entender todos aqueles tracejados. Via as palavras, mas elas não lhe faziam sentido: “doze anos de ótima atividade em nossa empresa.... desligada por motivos de força maior... compensação devida... referências para novas colocações....” Ao passar os olhos por essas palavras, ela foi sentindo um crescendo de raiva, de nojo, como se mãos se fechassem em sua garganta a impedindo de respirar. Uma ânsia de vômito.
Estou presa. E um desespero passou a invadi-la. Ela quis fugir dali, e a esse pensamento, um corpo que não era seu colocou-se de pé. Ela cambaleou alguns passos, enquanto se apoiava nas paredes frias, mas de um material que ela jamais tocara, aquela textura, não era pedra ou madeira que ela já tivesse visto. Mais um passo.
De novo o frio foi lhe enregelando. Sua respiração ficava mais rápida, seu peito, que não era seu, subia e descia rapidamente. Ela fechou os olhos e de novo se sentiu envolvida pela treva e não ouvia mais som ou sentia qualquer cheiro....

Alguém bate na porta incessantemente. Ela não responde. Mais batidas. Som irritante. Insistente. Contínuo. Mais e mais batidas barulhentas até que ela se rende e pronuncia um som misto de raiva, confusão e estranheza.
O rapaz entreabre a porta, adentra o quarto e deposita um enorme buquê de lírios que espalham seu perfume inconfundível pelo ar. Ela sorri. Automaticamente agradece e não sabe por que motivo não consegue tirar os olhos das flores. Observa, tenta decifrar porque elas lhe são tão agradáveis, tão familiares. Aspira o perfume mais de perto e encontra um pequeno envelope azul. Ela abre o envelope com mãos trêmulas. Um medo repentino toma conta do seu peito e ela desdobra o papel cuidadosamente. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ela lê e relê o pedaço de papel incrédula. Sem forças, ela o deixa cair e olha para as flores como se elas pudessem mudar tudo.Como se aqueles lírios pudessem espalhar sua beleza e perfume em seu ser despedaçado.Como se eles pudessem colar os pedaços do quebra-cabeças e formar algo inteiro novamente.
Por não suportar mais a dor ela deita-se no chão e se encolhe. Recolhe-se, e sente toda miséria, todo sofrimento de sua alma, toda a sua impotência, todo o vazio que a ausência dele deixou. Dói demais e ela implora para que a ferida cicatrize, que tudo passe. Ela tenta saber onde está, quem ou o que sobrou de tudo. Ela não sabe quanto tempo se passou, mas o tempo não importa. Não há fome, nem sede.
Só a dor, o sofrimento, e o frio... Ah, o frio, cada vez pior, mais penetrante, mais presente, mais senhor de si. Ela tenta, mas não lhe é mais possível se mover. Ela já não quer, ou não sente, ou deseja mais nada. Ela apenas aguarda e sofre. E sente o que lhe foi sempre conhecido, familiar, de certo modo só seu, certo, presente, marcante: a solidão, o vazio... O azul, ah, o azul... Ela gostaria de se lembrar do azul, mas não lhe é mais permitido.
Seus pensamentos, estes sim estão livres, voam, sonham, vivem, realizam, erram, riem, persistem, sobrevivem, acreditam, como ela já não pode, como ela jamais poderá. Num tempo em que ela já não pode voltar.
Mais batidas. Mais barulho. E de repente um som que lhe é conhecido e parece aquecer tudo e fazer tudo brilhar... e num último esforço ela abre os ouvidos e os olhos . E ouve e vê. Mas não acredita...

(...continua)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

De lírios - parte II

(continuação da parte 1...)

Nada se movimentava, nada acontecia. Por segundos sem fim, o mundo havia parado.
Ela já não sabia o que fazer, para onde ir, para onde olhar. Parece ouvir algo, mas não sabe ao certo se imagina, ou se realmente ouve. Parecem passos. Sem pressa, determinados...

Num gesto automático, ela se vira e fixa o olhar sem vida num ponto distante.O ponto se aproxima e vira sombra. Ela apenas observa. A sombra se transforma em vulto e ela sente frio. Junto ao vulto a neblina se torna densa, pesada, compacta... Quase sólida.

O vulto se aproxima. Ela treme. Estremece. E percebe que ironicamente a sensação de calafrio, de pavor, é melhor do que nada. Por instantes, a dor se vai. Dissipa-se.
Ela aperta os olhos, tenta enxergar em meio à neblina o vulto que se aproxima...

Mais e mais perto. Mais e mais frio. Tremores. Temores. E agora ela pode sentir o ar congelando à sua volta. O vulto movimenta-se ao redor dela como quem estuda o inimigo, reconhece o terreno de batalha. Ele dá voltas e mais voltas incessantes. Ela se sente tonta e num esforço superior às próprias forças, fixa o olhar no vulto. Não percebe formas, apenas um par de olhos azuis que faíscam em meio à bruma. Ela segue os olhos, agora curiosa, mas está cada vez mais frio, mais gélido, mais silencioso. Ela se sente fraca. Tenta continuar de pé, tenta fazer com que as palavras saiam, mas é impossível. Ela mergulha no azul. Azul profundo. Azul cruel.

Ela mergulha mais e mais no azul sem fim, e se esquece de tudo. O azul a envolve, a domina, e ela já não sente mais frio. Não vê mais nada.

“Dna. Selma? A senhora está bem? ” ela ouviu sons que pareciam vir em sua direção. Sua visão turva foi se clareando e ela pode divisar um rapaz, provavelmente nos seus dezessete anos, vestido de forma exótica, quase sem cabelos, se dirigindo a ela numa língua estranha. Tudo ao seu redor não fazia sentido. Onde era aquele lugar? Percebeu-se sentada e a sua frente podia ver uma caixa que projetava uma forte luz, como um espelho que, em vez de mostrá-la, exibia o retrato de um lírio branco. Nas mesas, muitos papiros, brancos como ela jamais havia visto. Sons vinham de todos os lados. Metálicos, como se ela estivesse em uma ferraria. A claridade do sol em uma janela distante contrastava com a claridade branca que a envolvia.

Será que ele havia sido capaz de fazer isso com ela? Ela se ouviu dizendo palavras que não conhecia, mas, que ao mesmo tempo, eram tão parte dela: “Estou bem, Alexandre. Vamos, volte ao trabalho.” Nada. Não podia sequer lembrar o lugar onde ela havia crescido e de onde jamais poderia ter saído. A maldição, ela se lembrou. Será que ele...? Não. Enquanto pensava essas coisas, sentia com as mãos o próprio corpo. Olhava para as pontas dos cabelos, que haviam perdido sua negritude quase azulada e adquirido uma tonalidade de amarelo-girassol.

(continua...)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

De lírios - Parte I

Com tenho estado meio "desinspirado", resolvi trazer à luz algo que foi feito e há muito está guardado. Trata-se de um longo conto escrito a quatro mãos com minha querida amiga S 4 Sunshine. O modo de fazer era simples, cada um escrevia um parágrafo e mandava para o outro, esse parágrafo era o mote de onde se deveria partir. Ele está todo pronto, mas preferi colocá-lo aqui aos poucos, pois dizem que o que é bom, deve ser vagarosamente saboreado. O título fui eu quem dei, a partir de elementos do próprio conto.

***

Ela se levantou sem pressa, sem querer, olhou à sua volta e se viu em meio há uma densa neblina. Esfregou os olhos como quem acredita estar acordando de um pesadelo, sentiu uma leve brisa gelada passar por seu rosto de marfim e estremeceu...
Incrédula, olhou à sua volta novamente, e se deu conta de que não era sonho, pesadelo, ou quem dera uma ilusão...
Sim, ele se fora, como havia dito um dia que iria. Sem prenúncios, sem despedidas, sem lágrimas. Era tempo de ser. Ela, ao perceber o inevitável, caiu de joelhos e contemplou o infinito vazio e gélido.
Ela abriu seu peito e gritou o mais alto possível, para que não morresse de dor. Mas nenhum som se ouviu. Caminhou lentamente até um campo de lírios e ali o observou longe, alto, decidido. Ela sabia; sempre soube. Desde o dia em que ele viera. Desde o minuto em que ele chegara.
O futuro seria como tinha sido escrito. Nada mais... nada menos.Nada importava agora.
Ele se fora. Era só. Um último olhar sem esperança, mais por hábito do que por razão, e ela vê ao longe, uma silhueta que lhe era conhecida. E é só. Nada há por vir. Nada que faça sentido. Se pudesse, ela derramaria lágrimas, sentiria desespero. Mas ela já não pode.
Então, ela apenas contempla o bater de asas, cada vez mais distante... cada vez mais silencioso. Cada vez mais cruel. Cada vez mais sombrio.....
E ele se afasta, primeiro em pensamento, depois a cada farfalhar de asas, ganha altura,
ganha confiança. Ela sabia. Ela sempre soube. Coragem, não olhe pra trás. Ele sente o
calor do sol chicoteando sua face, folhas ao vento buscando impedi-lo de continuar. Ele
passa a mão na testa para afastar a franja que lhe cai e sente o choro quente escorrendo
pelas bochechas. Mas por que ele chora? Era o que estava escrito. Há um silêncio, que se
transforma num grito. Num ímpeto ele decide olhar pra trás, mas esse ímpeto é varrido
pelo vento que já se faz cada vez mais veloz a cada bater de asas.
Ela vê que ele vira apenas um ponto distante, uma nova estrela, a primeira a despontar no
céu de ocaso. Ela continua lutando para que as lágrimas encontrem saída de seu peito, mas
ela não consegue, o aperto aumenta, a pressão, mas por mais que se esforce, seus olhos
continuam secos e vão perdendo a cor. Ela já se sentiu assim antes. Morta. Nem o doce
cheiro da grama, nem o céu vermelho do por do sol consegue arrancar dela algum sorriso.
Ou qualquer outra sensação. Seus lábios se movem, como se pedras tivessem sido atiradas
no espelho d'água que era seu semblante. Morta. Morta, ela repete silenciosamente.
Ouve um barulho, vindo de trás de si. Ali onde havia a árvore da sombra fresca. Ela prevê
que algo extraordinário está para acontecer. Ela se vira lentamente, experimentando mover
um músculo de cada vez...

(continua)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Se vou

Às vezes, tentei desenvolver uma nova forma de escrita. A escrita a 4 mãos. Foram diversas tentativas de um exercício interessante. Veja lá: eu escrevo um trecho, mando ele pra outra pessoa, que vai lê-lo inspirar-se e continuar o jogo. O texto vai crescendo e indo pra lugares inimaginados, você tem que desvendar problemas colocados, criar novos, ir e vir, experimentar coisas que jamais escreveria. Muito divertido, não é? Mas houve um agravante. Não consegui até hoje terminar nenhum dos 4 textos começados. Bom, um foi terminado, mas ainda não passou pela estruturação final. Creio que logo ele estará aqui. Ele será talvez a única experiência bem sucedida. Mas os outros textos tinham seu valor, e eu não sou homem de ficar começando e largando na metade. Decidi que se o outro partido renega a escrita, como diz o ditado, "quando queres algo bem feito (ou pelo menos feito), faça você mesmo".

O texto que segue é fruto do que surgiu quando fui escrever com o Rodrigo. O que foi dele, salvo algumas pequenas mudanças, está em itálico. O resto é meu. Espero que ele goste do final (risos).


***

Eu abro os olhos, mas a escuridão persiste. Tento me localizar. Não vejo nada. Sinto frio. Estou no chão. Sento-me sem conseguir enxergar as minhas mãos que coloco a poucos centímetros do meu rosto. Toco meu rosto. Sinto uma aderência estranha Sangue. Meu? Meu nariz dói. Mas não me lembro de ter batido meu nariz. Não me lembro de nada. Escuto ao longe um som de metal chocando-se contra metal. Parece que alguém está martelando algo. Um som repetitivo, ritmado. Ping... ping... ping...

Vou tentando sentir as outras partes do meu corpo, e as sensações vão me invadindo, como se abrir os olhos tivesse sido empurrar a primeira peça de uma fileira de dominós em pé. Um derrubando o outro, uma sensação sobrepondo-se a outra, sobrepondo-se e complementando. Frio. Estico o braço e tento tatear numa cegueira desesperadora, a saída dessa escuridão desconhecida. Flashes atravessam minha mente. Começo a me lembrar. Mas me lembro do sonho. Um céu azul, de um azul que eu nunca havia visto antes. Um dia modorrento, abafado. Nenhum som, exceto o de meus passos nessa estrada. Mas que estrada é essa? Vejo uma menina. “Olá!” diz ela numa voz que destoa de sua aparência pueril e delicada. Parece uma velha falando. “Eu sou Alice e bem-vindo ao país da maravilhas!” E uma risada que parecia carregar toda a malícia do mundo. A risada do diabo em pessoa, naquela pequena loira ali parada na minha frente naquela estrada. E a escuridão.

Luz? Alguém disse luz? Não, ninguém disse, fui eu quem a acendi. Aproveito e olho no espelho, mas já não me enxergo mais. O tempo parece ter levado de mim o que nunca descobri realmente ter. Quando ando pelas ruas sorrio, tentando despertar nas pessoas alguma curiosidade. Ninguém vê. Corro para ficar suado, e ainda assim ninguém se pergunta por que nesse dia de frio a água corre em bicas pelo meu corpo. O que foi que aconteceu comigo? Simulo chorar. Tentei comover, mas nem a senhorinha com o guarda-chuva parece se importar. Quando foi a última vez que vi minha sombra refletida no chão? Quando foi a última vez de que gostei da imagem envergonhada no espelho? Não me lembro. Não agora. Alguém, por favor, apague essa maldita luz.

Mas meu braço não responde. Sinto as veias das minhas têmporas latejarem e um fio de suor escorrendo pela nuca, serpenteando espinha abaixo. Sinto um gosto amargo na boca e fico tentando lembrar a última coisa que comi. Sinto minha bexiga doendo e mijo displicentemente respingando no chão. O mijo quente não pára. Quantas cervejas tomei ontem? A imagem da loira dos meus sonhos, era ela que segurava um guarda-chuva? Tenho que lembrar nunca mais tomar ácido de novo. “É melhor que bala, mano” ele disse. Mas aqui estou eu, com esse gosto de podre na boca, minha cabeça quase explodindo, essa luz me cegando e minha imagem distorcida no espelho. Minha mãe já dizia que meu reflexo refletia em tudo o que eu fazia, e tudo o que eu fazia refletia em mim. Que bom que já não tenho que ouvir mais esses absurdos existencialistas da velha cotidianamente, e sim, a segura uma vez por mês que lhe agracio com minha presença pelo telefone. O que vale mais? Sofrer um pouquinho a cada dia, ou muito em ocasiões particulares? Apago a luz e penso como cheguei em casa. Com os olhos fechados, de forma a suavizar a dor, vou sentindo o caminho de volta a minha cama, mas ao estender a mão para afastar os lençóis, percebo que há algo ali.

Fecho os olhos apesar da escuridão. Uma cena se forma na minha mente. Não faz muito tempo. Naquela época meu pai ainda costumava chegar tarde do trabalho. Costumava ser por volta das 11 da noite quando eu e meus irmãos ouvíamos a campainha. Embora ele não fosse visita, e nunca era, pois a casa era dele mesmo, meu bom pai sempre fazia questão de tocá-la. Ele tocava a campainha e nós corríamos para a cozinha para ver o montão de delícias que ele nos trouxera. Mas nesse dia foi diferente. Diferente não só porque havia chovido durante todo o dia, mas diferente porque seus olhos pareciam ter gritado durante as últimas horas, num desespero latejante e comovente. Ele nos olhou e sorriu com o canto da boca. Havia mesmo algo errado naquele sorriso. Voltamos para a sala e nos amontoamos entre as dezenas de cartas com números e caras engraçadas. Depois de alguns minutos, escutei o que havia acontecido. Ele havia tirado uma remessa errada de um pedido lá da fábrica de parafusos em que trabalhava. O transtorno tinha gerado uma dívida imensa para a companhia que não via outra razão senão demiti-lo. Seja lá o que isso significasse, estávamos desempregados. Naquela época, papai já andava meio estranho com a morte do nosso avô. Ele não reagia bem desde aquela tarde de outono no hospital, quando recebemos a notícia de que vovô não reagira ao tratamento e havia falecido. Agora, pensando melhor, havia um par de meses que meu pai não nos trazia os mimos açucarados de sempre. Ele realmente não andava bem. Logo depois que saí do banho, percebi que papai deixara um embrulho em cima do armário. Lembro até hoje daquela cena. Fiquei curioso. Depois que todos haviam dormido, fui à cozinha. Desembrulhava calmamente aquelas folhas amassadas de jornal, que traziam uma cobertura especial da vinda de Marley O’Neill ao Brasil, quando quase caí da cadeira. O que aquilo significava? Por que meu pai o havia enrolado daquela forma? Fui direto para cama, soluçando de espanto. Longos anos se passaram. Dez ou doze anos depois, mesmo depois da morte do meu pai, o embrulho continuava ali. Foi aí que um dia decidi dar vida a ele. O estranho é que eu não me lembrava de tê-lo deixado sob o lençol. Alguém havia estado ali.

Deitei-me, convulsionado por essa mescla de pensamentos, memórias da minha infância, meus pais, bem eu que estive fugindo da minha família nos últimos cinco anos e tinha que lutar com todas as minhas forças pra aguentar e sair ileso de eventos como natais e aniversários (já que para os velórios eu sempre tinha uma boa desculpa). Seria por meu relógio de cabeceira piscar cinco minutos passados das onze? Seria o barulho de chuva que ainda caia do lado de fora da janela? Seria um repentino medo da presença que espreitava nas sombras, mas que eu não podia ver, ou sacar se era amigo ou inimigo? Por um momento senti que o ar parecia eletrizado e tudo se movia mais devagar. Estaria eu ficando louco? Encostei as costas da mão no embrulho e mesmo estando ele envolto em folhas amassadas de papel, podia sentir o frio metálico e sua dureza. Fechei a mão abraçando aquele objeto, sentido seu formato, seu tamanho. Senti o coração acelerar, e ao mesmo tempo, não pude evitar que uma gargalhada explodisse no silêncio do meu quarto. Respirei fundo, assustado pela minha própria gargalhada, e uma espécie de onda de fúria e vergonha me invadiu o íntimo. Quase que incontrolavelmente senti meu pau ficando duro, mas era uma reação tão díspar, alheia ao momento, errada. Que tipo de magia negra havia naquele objeto tão odiado, naquele falo fundido que podia me excitar? Uma nova onda de culpa e remorso. Imagens começavam e se formar na penumbra, assim que a luz do luar invadiu de repente a minha janela. Já parara de chover. Abri os olhos e ele estava ali.

Lembrava dele mais baixo, menos careca. Era como se o Mestre dos magos tivesse feito uma plástica e estivesse com a cara do meu pai. Tremi, de uma forma incontrolável. Abracei a arma, enrolando melhor o papel, não queria que ele soubesse o que estava ali comigo, apesar da quase certeza de que ele era uma miragem, uma projeção psicológica que tentaria me impedir de fazer o que eu precisava fazer. Quem iria quebrar o silêncio primeiro? O silêncio de décadas? Ele me olhava profundamente. Nada transparecia. Raiva, pena, compaixão, nada! Na luz do luar, éramos só nós dois enquanto o resto do mundo parecia dormir. Parecia dia. Achei que ele fosse gargalhar como a menina do meu sonho. Ou era realidade? Ainda sentia no ar um perfume que não era o meu e não emanava daquela aparição. Era um perfume de mulher. Lembrei-me da senhora da sombrinha. Por que ela parecia tão triste? Por que eu não me dispus a ajudá-la? Por que ela voltava a povoar a minha mente num momento tão delicado como esse, no qual minha vida estava por um fio?

Fechei os olhos e fiz algo que não fazia há anos. Orei. Fiz uma oração sincera, como se minha vida dependesse dela. Tentei entrar em contato com o divino, com o universo, com o grande espírito, que está lá, no final de todas as nossas contradições. Queria chorar e não conseguia. Não havia chorado quando tinha perdido o meu emprego. Não tinha chorado quando minha Marilyn Monroe tinha ido dançar sua dança em outra freguesia. Nem quando minha mãe morrera. Nem quando papai... abro os olhos e estou sozinho novamente. A presença ainda ecoa no quarto, mas a escuridão reina. Deve haver uma nuvem cobrindo a lua. Deve haver uma nuvem cobrindo a minha vida. Me sinto solitário e vazio. Mas me sinto forte. Sinto um impulso momentâneo quando percebo minha fortaleza. Quero levantar e quebrar tudo, jogar todas as minhas coisas contra a parede. Quero fazer buracos na parede na porrada. Quero queimar e cuspir em tudo. Penso em rezar de novo, como a vovó havia me ensinado, mas não consigo.

Desembrulho o pacotinho. Ela sorri para mim. Coloco o cano frio e metálico na minha boca. Bum, e tudo passa, eu fico em paz. Só uma apertadinha, um leve movimento dos dedos, e todos os meus problemas estão solucionados. Não tem que procurar mais emprego, nem me humilhar diante de ninguém, nem sofrer por amor, ou fingir que eu amo. Puxo o gatilho. O barulho me dói nos ouvidos. Parece que eu nunca o ouvi antes. Como acontece sempre nesses dez anos. Respiro fundo e sinto que finalmente consigo chorar. Choro e me sinto alegre. Mas não consigo rir com aquele cano enfiado na minha boca. Mamãe, me espere, ou melhor, vem aqui buscar o seu filhinho. Ouço de novo a risada e vejo de novo o guarda-chuva. Despedido. Sozinho. Adeus. Click.

O som seco do gatilho me dói nos ossos. Tiro o cano da minha boca e seco a ponta da arma com um pedaço do lençol. Por que eu nunca lembro de comprar nenhuma munição? Tanto tempo, tantos anos tentando, e sempre falta a munição. Cuspo no pia o resto de saliva que não consigo engolir. Me matei mais um pouquinho hoje. Amanhã volto a vida de morto-vivo. Embrulho a pistola nos mesmos pedaços amarelados de jornal. Guardo de novo na gaveta. È como um ato religioso, repito cada movimento da mão, do corpo. Um dia alguém vai me olhar. Um dia eu vou ser livre. Vou comprar balas bem gostosas, docinhas, que derretem na boca. Mas hoje não. Está tarde. A lua está alta. Amanhã.