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sábado, 9 de dezembro de 2017

Medo da chuva

Doze minutos
A esperança e o sonho
Literalmente por
água abaixo.

Tudo parado
Não é a sinaleira
Nem toda a precaução
desse mundo

dão conta de acertar
os ponteiros da vida.
Diz aqui no edital
atrasado

leva pau. E a conster-
nação se torna real
A torcida vira logo
piedade.

Quando chover agora
Espero estar precavido
Porque azar demais
tanto bate

que fura.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

The flood - 3rd version

A new version of an old text. Other versions in here and here (Portuguese)


Trashy all over
The unsmiling boy.
Heart, mind, body.
Not sick, nor broken.
Just adding one to one.

Trying to derive some logics
out of so much nonsense.
Afraid of the process
For recycling is destruction
then rebuilding.

Not completely lost.
Where is he standing?
Pushed out of the platform,
into the tracks. Luckily,
No train.

Helping hands
He’s out again.
But something dropped there.
Something he just cannot
remember what.


Imprisoned by reactions,
so free inside the cage
of fears and disillusionments
Of vices and habits
Of expectations and hopes.

He learns (the hard way) about
no certainties, no tomorrow-I-know's. 
Aware that he had nothing.
Possessions gone, once solid
Proverbially melting in the air.

He saw himself
with a car, an apartment, a cat.
He saw himself living in More's
Utopia, Shagri-la, Mattapoisett.
Deprivation feeds on dreams.

Distant thunders roaring.
Raindrops falling and splashing
on dirty soil.
Clouds gather and darken,
drops lick his face and he knows

The storm is beautiful
and he is home
and he is there,
in its heart, and it’s nobody's fault.
Simply life.

Swimming forward, dragged sideways.
The flow of water is merciless.
So are the debris of once grandiose
edifices. Only crumbles of what was
and what he had envisioned.   

Now, revelation molds images.
Shock and relief in a shriek.
He stops swimming.
His nerves, his limbs rest.
Darkness envelops him.

Annoying warmth and light linger. 
No one is to blame but
Fear, eating him main course.
His groin hurts. Virility vanishes.
Forcedly androgynous fallen angel.

Afloat, taken by the waves,
The storm gives way
To feeble rays
of a timid sun.
Rippling water a silver lining a rainbow?


The water is lowering.
The scent of mud, still
unable to stand up
A surge of hope like
belated lightning.

Euphoria meets enchantment
and twin sweet illusions are begotten.
He builds half blinded by old
prejudices and drama new worlds, a new
language. At last no shields or cocoons.


He craves for enlightenment.
His drama explodes in a show
Of firework and laser
(the more he thinks the slower his thoughts fly by)
But that no longer scares him.

Helped by songs new and old
Is he dancing?
In a frenzy of some otherworldly
Ritual, he thumps, he is clapping.
Unsteered, uncontrolled vessel. 

Like a chorus, he chants into
Believability those words.
Darkness and light embrace
And they are one – freedom
(from himself or whatever, whomever else)

He bows and completely
awake he hears the echoes:
As natural as the rain that falls
Here comes the flood again
Or not... Or definitely not.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Diálogo


(...)
“Eu acho que não estou feliz com você.”
“Hein, mas como assim?! Você estava sorrindo hoje a tarde toda. Está tudo bem.”
“Depende o que é esse tudo bem.”
“Vamos lá, me dá um sorriso.”
(Força um sorriso)
“Mas é que tem certas coisas, subterrâneas, que correm profundas, e que precisam melhorar.”
“Lá vem você com esse seu papo poético. Estamos bem. Para de falar o contrário.”
“Posso até parar de falar, mas será que consigo parar de sentir?”
“Me dá um exemplo. Um exemplo que seja que prove a mim e ao mundo que estamos na pior.”
“Eu não gosto que você use roupa amarela.”
“Ah, mas porque você não gosta, isso significa que eu tenho que deixar de usar roupa amarela?”
“Você pode usar roupas amarelas quando estiver com as outras pessoas, porque para elas talvez isso não seja um incômodo.”
(vira os olhos)
“Acho roupas amarelas uma questão muito pequena. É um mimimi quilométrico por causa de uma coisa tão pequena.”
(suspiro)
“Pode ser pequena pra você, que não liga pra que eu vista roupa amarela, mas pra mim é algo grande. Porque dói.”
“Dói?”
(cara de descrença)
“Sim, dói. Você mesmo vestiu uma camiseta amarela mês passado.”
“Sim, mas quando a roupa amarela está em mim, ela não incomoda. Incomoda nos outros.”
“Isso é uma injustiça tremenda. Se eu parar de usar, você pode continuar usando?”
“Creio que o que incomoda as pessoas têm diferentes formas. Sempre tem alguma coisa que incomoda, mas se ela é diferente, porque eu devo medir você com a minha régua.”
“Quero te bater na cara com uma régua.”
“Você está desviando do assunto.”
“Não tem assunto nenhum.”
“Mas você deixaria de usar roupas amarelas por mim? Eu faço tudo por você.”
“Não sei. Você está tomando parte da minha liberdade em vestir o que eu quiser.”
“Mas existem tantas outras cores, azul, verde, laranja. Bege é quase amarelo.”
“Sim, mas o proibido é mais excitante.”
“Mas é o que machuca mais.”
“E você é um homem ou um saco de pêssego?”
“Não seria de batata?”
“Nem batata é tão fraquinha assim de não aguentar umas paulada.”
“Mas precisa ter paulada?”
“Acho que às vezes eu gosto de ficar sozinho.”
“Sim, eu também, mas percebe que agora eu preciso de uma resposta sua. De uma posição de comprometimento?”
“...”
“O que você me diz?”
“...”
“Tá pensando?”
“...”
“Adoro ter essas conversas com você.”

(viro para o lado. Meio adormecido, ele murmura qualquer coisa que eu traduzo como “cala a boca e vai dormir.”)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Erupção



No veio onde passou a lava,
Já nasce um musguinho
Já rastejam os primeiros vermes,
Um passarinho vem bicar.
Se anuncia a primavera.

A rocha incandescente,
Poeira levantando,
A natureza guinchando
Levando calor no lombo e
A terra se amoldando.

No ajuste, mistura esqueleto,
Com galho e tronco
A terra vai se solidificando
E chia se cai na água, que se espalha
Toda vaporenta.

Por acaso aquilo é uma flor?
Ela ficou ali, ereta, chamuscadinha
No meio do inferno.
Ela sorri pra mim.
Ela tem dono, mas eu pego


e coloco no cabelo.

domingo, 31 de março de 2013

Setting out again



I take an old amateurish harp
from under the bed.
I feel the dust dancing around me –
time’s fairies –
and sticking to my finger.
It must have been my great-grandmother's.
Now, it belongs to me—an accident.
The wires crave rust to come eat them.

I reach out for a sheet.
I cannot play it without
(you) following the guidelines.
Now, I just have to follow the dotted line, note after note.

My mind withdraws –
fetal position –
and I see him in front of me.
This makes the distance increase.
Who are you, stranger that I love?
How come you’re here?

The one meant to protect and care for me,
throws words like darts.
They pierce and I cringe.
Your hands are so cold. You look so thin.
Why are you avoiding the mirror,
my friend? Why is your handshake so feeble?
I wish things were like they used to be.
I guess it's too much wishing.

And as he vanishes I see her.
The one who should be someone else.
The one who made me change
Up to a point I was lost and found.

She just made an excuse, mumbled some words,
it's better if..., we'd better stop...
I bowed. I said I agree, you always know what's right
and hugged her,
so that she could not see the tears running down my face.
(They only see what they want.)

Suddenly, I am with them no more.
I feel the warmth and
use my hands to shield my eyes from
a blinding light.
I am the new Elijah!
I did savor the past, feasted on the scraps
they kept throwing me,
like a fucking pigeon.

I climb one step.
I stop to give them a chance to
say goodbye.
Another step, and my soul is peeling off
feelings like dirt.
(but I’m here in my mold?)

I get into this chariot of fire,
softly, gently,
as if it was home.
Where to? the angelic conductor asks
in a firm but melancholy voice.
He sees it as clearly as I do.
To the old me, please.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Carta aberta


Carta aberta de adeus até mais

Olá, meu amor!

Olhando pra trás nesse tempo todo que estivemos juntos, um arco-íris se forma. Só que ele não tem só 7 cores. Ele começou com Seven, mas ele foi ganhando outros matizes, e não só cores, ele se completava com cheiros, com texturas. Ele virava um caleidoscópio e a gente se enxergava e a gente se entregava. Foi puro e honesto e sincero, mas não foi também o oposto, por vezes?


Lembro da sua carinha surpresa e feliz, quando eu falei que não ia mais pra Floripa, pra poder investir em alguma coisa que eu não tinha certeza se seria verdadeira. "Você nem me conhece!" Minha primeira reação foi te contar que eu viajaria em menos de um ano. E pra você aquilo não importava. Você era carpe diem e o ano seguinte estava universos de distância. No fundo, eu contei aquilo, meio sem fé. Algo tão intenso, que começa assim, em dois dias, iria durar até o ano que vem? Against all odds (and evens) durou.

Você me proporcionou coisas que eu não conseguiria nem listar. Muitas coisas doces, outras amargas. Mas não é assim a vida? Com seus altos e baixos? Como esperar ver apenas um lado da moeda? Você me fez mais forte, mais voraz, você me fez feliz. E ainda faz.

Realmente não ficaram muitas mágoas. As que ficaram o tempo vai apagando, desde que a gente cultive as boas memórias e balize a nossa nova relação nessa base que criamos. Sei que você se esforçou e cresceu, muitas vezes à força. Eu não me dobrava como mato ao vento, eu endurecia, e você me entendia e dançava a dança, e essa era a nossa grande aventura, ao som do "ritmo antigo". Eu te fiz mais rico e reconheci em cada detalhe o seu amor e sua dedicação. Era exatamente esses detalhes que me faziam querer você mais e mais, e eram eles que machucavam mais, nas suas desatenções. 

Sim, a vida é um rio e a gente sabe onde ele vai dar, mesmo sem saber direito como, é fluído, paciente, rola pedras, contorna, vira lago, vira ravina.E somos também ponte. Te levei a um novo lugar e espero que você goste e saiba como se comportar. Você também me levou. Estou nele e vou adiante. Eu escolhi um caminho de aprendizado, um exílio necessário, para poder me encontrar e poder desenvolver certas coisas das quais eu havia me distanciado no último ano. A pedra a qual eu me seguro, diria Melua, "imagine if you let go". Você também vai crescer, tenho certeza, se estiver disposto a isso e vamos rir muito e talvez chorar, mesmo com a distância, sobre tudo o que for acontecendo. O amor, posto que é sincero, esse fica. Ele vira coisas bonitas.

Vou tentar voltar mais forte, mais justo, mais leve. Com certezas as novas perspectivas vão estar abundantes. E vou tentar acima de tudo ser mais sábio. Amo-te como sempre amei e desejo que você fique, mas que possa mesmo assim viajar para novas paragens, que vá além dos seus limites e seja mais e mais o ser humano do qual eu e as pessoas que te amam se orgulham. (E lembre-se de não subestimar as pessoas e de levar o guarda-chuva e o agasalho hehe)


O fim (só que não)

domingo, 15 de abril de 2012

Shakespeare manda lembranças


Doce Yago, de olhos pequenos
Vindo das baixas patentes, querendo mais, mostrando os dentes.
Faz de mim, seu mouro, a sua vendeta.
Escarnece de mim, e me abre os olhos, ao mesmo tempo que me ama.

Um lencinho, sujo de sangue. Queres mais?
Não seria o lencinho de Desdêmona?
Abre-se como um leque, isto e aquilo.
Nem é preciso olhar com muito cuidado.
Está tudo ali, pronto pra ser visto, confirmado
pelas testemunhas invisíveis, pelos fantasmas
que rondam.

Se enche de ódio, mouro, sua Desdêmona amada te desdenha.
Faz a suspeita pingar em gotas, vermelhas, pútridas.
Ela leva flores para o vaso, flores que não são as tuas.
Mas ela leva para o vaso de Emilia, e diz que as flores a pertecem.
Doce beijo de Desdemônia.

Sente o ar te faltar, infiel?
Sente meus dedos enganados, apertando a sua carne tenra?
Dê seu último suspiro e se despeça como a quem os anjos vêm buscar.

***
Acorda Otelo suando. Foi tudo só um sonho. Só um sonho ruim.
Dorme tranquila, querida Desdêmona. Não foi hoje. Não hoje.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Cameleon


"At the end of the day all we have is who we are"

Hide all the mirrors,
they serve me to nothing

All pieces of souls
Scattered in a stained glass structure.

I try to see what part of myself is there
And there is only

What I am not.
I change colors again

I am afraid so I try new rues
I try to become the world around me.

It makes me dizzy.
Yet I am not myself anymore.

I am sure I am not sure.
And you see I am

I was and am not.
No longer, then I am green again.

Will I be it again?
So my colors change and adapt (to what?)

Inside, it seems black and white.
A rainbow, in shades of grey.

domingo, 6 de novembro de 2011

Enxurro

Abro os olhos e começo a escrever um ensaio sobre a minha cegueira. Andando pelas ruas desta cidade, domingo de noite, um vazio e o concreto, vidas nos bares de esquina, pessoas rindo e pessoas ali, vivendo, num mundo sujo e feio (pra mim) e meu mundo também. (por que eu deixo meu mundo ser sujo e feio?) caminho em direção ao teatro e sinto a minha pele meio que reagir com o ar poluído e fétido e o cheiro de cimento e mijo. Sou parte desta bagunça. Eu ando por ruas que nunca havia andado antes, e parece que eu estou num outro planeta, numa outra dimensão. Para onde vão todos os seres humanos num domingo ao cair do sol? Vejo poucos num cenário de muitos, já ouço os mil passos que caminharão por aqui em algumas horas. Sinto medo, mas eu sou fã de ficção científica, por isso a aventura me excita a continuar. Rumo ao teatro, sozinho. Ali, encontro outras almas sedentas de alguma coisa. Provavelmente a mesma coisa que eu. O que eu estou fazendo ali mesmo sozinho, em vez de estar em casa, em comunhão virtual, em companhias conhecidas? Não tem nada ali para eu conhecer. Vou ter que me bastar a mim mesmo. Olhos nos olhos é o que eles cantam. Posso te encarar então? Posso te enxergar? Pensar em você como um personagem em meio a esse cenário desolado? Vou vendo a progressão da peça que parece não levar a lugar algum. Eu não entendo nada. Entendo fragmentos. Olho em volta. Parece que eles foram longe demais desta vez. Por que eu me sinto tão burro? Seria só eu, ali no meio daqueles corpos que compartiam o mesmo espaço que meu corpo? Quantas mentes havia ali de verdade? As palavras e os sons e as luzes, eu quero devorar tudo aquilo. Eu entendo o futuro e o passado e vejo a mensagem anunciada do jeito que eu esperava. Não não do jeito que eu esperava, mas a mensagem é aquela. Essa sim, clara. Quando eu percebia que eu não entendia nada, daí eu percebi o que era pra entender. Eu ficava lembrando do livro, que eu já deveria ter lido, que eu deveria ter escrito. As vinhas da minha ira não são tão amargas quanto eu pensava. Eu me envergonho de mim mesmo. Vejo aqueles rostos conhecidos, quase amigos, que não me reconhecem, posto que sou só mais um, lembro das suas frases, dos seus movimentos. Quero agarrar aqueles corpos em movimento e cantar com eles as suas canções. Vejo o apelo em seus olhos. Eles acham que estamos entendendo. Estamos entendendo? Quem somos nós. Eu olho em volta e só tem eu, no meio de uma selva de pessoas que não existem, só ali. O espetáculo, por assim dizer, acaba. Eles abrem a porta e eu não consigo ficar mais nenhum minuto ali. Eu preciso sair do sonho, dessa realidade alternativa e voltar para a minha realidade brilhante, onde eu posso viver de verdade, onde eu posso ter em mãos a ferramenta que me une aos outros, que me traz conforto, que vibra sobre meus dedos finos e delicados, dedos de artista. Não quero ouvir nenhum comentário, porque não quero que roubem de mim a minha compreensão do que eu tinha acabado de ver. Eu entendi tudo, quando não entendia nada. Fui o primeiro a sair, meio fugido, pensando nas coisas que tinha sido ditas e cantadas, que força! Desci a rua, voltando por um caminho que não tinha sido o caminho da vinda. Tive medo de me encontrar vindo, e mandar que eu voltasse, antes mesmo de chegar. Olho na esquina e me vejo ali agachado, fuçando o lixo que se espalha sobre a calçada. Quanto lixo. Eu deixo que minha cidade seja assim suja, eu sou aquele lixo, eu não o recolho, então sou parte do que o espalha. Mais adiante, tentando esquecer o lixo, eu me fixo nos corpos que se oferecem, nos corpos que sentem fome e precisam ser comidos para poderem comer. Eu tento esboçar um boa-noite, mas talvez eles não entendam a minha língua. Eu tenho medo. Medo da sereia, e eu aperto o passo. Ouço risos mas não sinto a alegria. Outro que passa por mim em olha com desejo e eu sinto o cheiro da decrepitude. Eu peguei a rua diferente para fugir do meu passado e encontro o meu futuro. Ele olha com desejo e seu olhar grita: me ame, e eu tento responder que eu o amo, mas só consigo embaraçar num soluço e começar a chorar. Eu não quero ser assim. Mas ele me diz, eu não olho pra trás, ele me grita o nome e diz, assim será, assim será. Continuo andando e quase tropeço em uns farrapos que me pedem dez centavos. Eu agarro a minha nota de dez reais, que é tudo que tenho no bolso, ela me faz cócegas na mão e me conta em dez segundos uma longa história de um filme com um sul africano que me fez perder um pouco a esperança no mundo. Ele me mostrou que confiar significar perder, mas de novo, ele me mostrou que se há no mundo pessoas como eu, ele não se está de total perdido. Não que eu tenha agido com o melhor dos propósitos, nem que eu tenha sido o mais sensato dos intelectuais, muito pelo contrário. Mas eu vi. Tateando de novo os dez reais, lembrei de toda minha fortuna, do meu império, da minha espoliação. Sou um vendido. Mas quem não é? Justifico minhas fraquezas pela carne e pelo vinho, escuso minha casa própria, ou não tão propriamente assim, e respondo meio baixinho, não tenho dez centavos aqui comigo. A tristeza vai se tornando maior que eu e já não sinto medo nem nada. Ela já passa da altura dos olhos. Me afoga. Tento focar no chão e no céu, mas um tem muito lixo, o outro poucas estrelas. Tudo me aborrece e eu tento formular na minha cabeça uma música bonita, uma forma de entender tudo o que eu tou sentindo e vou tentando matar cada frase que se forma, um tanto quanto poesia, diriam, pra tentar entender o que está acontecendo. O passeio prossegue, mas eu já não tenho forças pra manter o passo forte, pra correr pra minha tenda, meu eldorado no sétimo andar, quente e macio, regado a creme de leite e memórias européias. Me lembro que em menos de um mês estarei desempregado. Ou semi. Que estarei livre, mas ao mesmo tempo, mais preso do que nunca às preocupações mundanas. Não consigo sentir medo, mas vejo rotas de fuga. Será que vou ter que perguntar pra alguém se ela tem dez centavos? Provavelmente não. Será que eu deveria agora, nesse momento abismado, pular no abismo e não voltar? Uma semana talvez, sumir e ficar aqui, fuçando o lixo e passando fome? Me senti com fome, mas percebi que comida nenhuma vai aplacar esse vazio. Tentei pensar no meu amor e ele servia como uma base, na qual eu sentia uma segurança, mas eu também usava essa base para me erguer acima da altura das cabeças da multidão e via lá longe um profeta nu, segurando o pinto entre as mãos e gritando: é tudo ilusão, é tudo ilusão. E essa pareceu a maior verdade, e ao ver que ela era assim, toda verdade, percebi que toda ilusão é toda a verdade, e vice-versa. Fui andando e ao chegar perto de casa a segurança foi se instalando, eu comecei a dizer boa-noite, porque as pessoas pareciam estar tendo uma noite melhor do que aquelas daquele deserto que eu tinha atravessado. Apertei o botãozinho e o clác das grades me assustou e eu pensei duas vezes se eu deveria mesmo entrar. Como um sinal daqueles e um olhar poderia me permiti ir a lugares que poucos poderiam ir? Você aí na sua cabine fumê não vê que eu sou outra pessoa? Quem era eu pra poder estar ali? Pura sorte. E oportunismo. Passei pelo porteiro e senti sua irritação que emanava como brasas de um vulcão ativo. Quase pedi desculpas a ele de tê-lo colocado ali. Não que eu tenha mesmo, mas pra ele deveria ser tudo igual. Eu lembrava agora do sonho do teatro, da linguagem que era a minha, mas não era. Das palavras inteligíveis cuja organização eu não entendia, dos movimentos dos corpos, chutando cadeiras e derrubando areia. Eu pensei em rezar, mas minha religiosidade tem sido meramente retórica. Queria abraçar um livro agora, mas minhas mãos estão nuas. Chego ao elevador e tento esboçar um sorriso, todo de plástico, e digo boa noite, quando na verdade vejo que é só mais gente que não sabe quem eu sou e não quer ver. São todos cegos, e ao vê-los assim, me sinto menos como eles, mas a cada andar que subo, me vejo menos no espelho. Giro rápido a chave e entro na casa de bonecas e eu já sou plástico e já sou rico e já estou de novo no meu mundo de verdade, na minha realidade que agora parece postiça como a peruca que querem que um dia eu use e que eu nunca jamais ousarei usar. Aperto o botão e sinto a luz invadindo meu olho e meus dedos nervosos querendo regurgitar estas palavras, eu me sinto morrendo e vejo que a morte é verdade, mas só ilusão. Vejo que me perdi pelo caminho, pelas ruas sujas e feias desta minha cidade, num domingo a noite, uma semana que morre, uma outra que começa. Morre a semana do dia dos mortos e eu aqui, meio vivo meio morto, tentando viver uma vida de plástico, pensando que amanhã toda a realidade será sonho e meu sonho será realidade. (Apesar de parecer, não, isso não é o fim).