segunda-feira, 23 de junho de 2008

Maze of Libido: fragment 1

Intelligence is a moral category. The separation of feeling and understanding, that makes it possible to absolve and beatify the blockhead, hypostasizes the dismemberment of man into functions. Praise of the simpleton has an undertone of anxiety lest the severed parts reunite and put an end to the derangement. ‘If you have understanding and a heart,’ a verse of Holderlin’s runs, ‘show only one. Both they will damn, if you show both together.’

Theodor Adorno, Minima Moralia 197 (“Wishful Thinking”)

Feast on Scraps

(algum lugar de 2006)

Eles jogam migalhas,
E eu aceito.
Eu como.
Eu lambo para que não sobre nada.
Eu tenho fome.
Uma fome crônica:
“Venham para meu estômago
Meus filhos!”
Eu tenho fome.
Mas eles não percebem
Porque eu devo não fraquejar.
Mas assim que eles se viram
Eu avanço nas migalhas.
Que são apenas fragmentos
Daquilo que eu não posso
Ter inteiro.
Minha fome me consome.
Mas sem ela,
Fico vazio.
Aprender a pescar
Ou depender das migalhas?
Um banquete de segundos roubados
De momentos unilaterais
De masturbação cotidiana
Eu tenho fome.
Vitalícia e vital.
Vitimante.

domingo, 8 de junho de 2008

Quarto escuro

(do passado, mas presente)

Ora, não é que minha vida se torna de novo um quarto escuro?
Que eu tenha que me ver novamente tateando em busca de alguma coisa que não sei direito o que é.
Minha vida volta a ser a parábola da caverna, mas diferente, porque não vejo sombras, ou melhor, tudo é sombra.
Não me sinto sozinho. Ouço os gemidos de devassidão ao meu redor. Me sinto um animal. Mas ao mesmo tempo, sou humano, mais humano do que jamais havia me sentido.
Sim, tenho consciência de mim, das minhas sensações, tenho consciência do meu lugar ali, da minha alegria, sinto amor ao meu próximo e me entrego a esse amor, como quem se joga ao mar. Ele me agarra, me envolve e me expande. Eu sou do tamanho do mar, mas sou poeira do universo. Porque penso. Ou sou pensado.
Busco a negação, porque percebo que eu sou uma ilusão. Não sou vítima nem algoz, mais algoz do que vítima, sim, eu sou. Mas acima de tudo, antes de ferir aos outros firo a mim mesmo. Sou uma grande cobaia das minhas experiências mais cruéis, e exulto quando elas dão certo.
Viajo e não saio do lugar. Me expando e volto a me encolher, só pra me sentir menor do que antes.
Busco e esta busca traz frutos doces, que ainda assim deixam um gosto de podre na garganta que nem um litro de minhas lágrimas inexistentes poderá fazer passar.
Provoco, queimo, odeio, caio e levanto. Preciso de você, mas não sempre. Às vezes, preciso de mim. Será que um dia vou não precisar de você? Mas é um prazer te conceder a minha companhia... será?
Sou fútil, leviano e superficial, de novo, e ainda assim os meus amigos e os meus inimigos me dizem que sou inteligente. Acho que sou os dois, então sou do pior tipo, da pior espécie, da pior laia. Mas sou apaixonante, sou uma graça, sou leve, sou como um sopro de brisa numa manhã ensolarada e morna. Mas balanço como o galho das árvores.
Eu quero ver! Mas está tão escuro! Por que eu entrei aqui? Quero me tornar um semi-deus! Quero transcender e... e..., é, por enquanto, é só isso...

25-10-2006. À noite.

domingo, 11 de maio de 2008

Domi(re e veja)ngo

Eu perambulo pelo centro. Sei qual é meu destino. O vento frio de maio castiga minha face. Vento cortante. Sob a proteção de duas blusas eu tremo. Depois de ter bebido doses de verdade e de poesia, eu ando pela Consolação sozinho agora, e tento não deixar que a luz amarelada dos postes penetre na minha alma. “Ai companhero, não teria uns 20 centavos pra me ajudar?” Eu me fecho como uma concha ao toque, como uma tartaruga que se recolhe ao casco. “Não não tenho!” e ora que havia acabado de mirar o abismo, acabado de perceber onde estava de fato, de maneira figurada. E não faço nada. Continuo caminhado paralelo aos montes de cobertores finos e embolados que deixam aparecer um pé desnudo sob o chão frio da calçada. Nenhum movimento. Haveria uma, duas pessoas? Quase um ano e eu quase nunca ando pelo centro à noite. E quando ando, sinto a poesia me dominando. Os porteiros que trabalham neste domingo noturno que preludia uma alvorada semana de labuta, fria madrugada se anuncia. Eles passam aos pares, rindo, por vezes, de toca ou cachecol, olhares atentos, fechados, tá-olhando-o-quemente. Cachorros de casaquinho (e os vinte centavos de bermuda, me recordo). Jovens, velhos, e logo o vinho e o piano invadem meus sentidos na esquina da Avanhadava com suas luzinhas, sua fonte ininterrupta no calor ou no frio. Parece a Europa. Passo pelos valetes que sorriem para os carros filmados e para os taxis. Olho para o restaurante de seis talheres e duas taças. Os cabelos brancos se empanturram. Velas tremulando sobre as mesas me lembram da vela que acabara de apagar lentamente sufocando a si mesma. Mais sorrisos, e o silencio da noite e do vento e dos pensamentos cortado por um grito de mulher: “Feliz dias das mães”. E eu longe de minha. Mais cobertores pelo chão, sob o viaduto, bem iluminado. Haveria duas, três pessoas ali amontoadas? Difícil dizer. A raiva me esquenta. Tiro as mãos dos bolsos e as deixo pendendo. As janelinhas dos prédios brilham em colorido de imagens que vão se alternando na velocidade da luz. Chego ao meu destino, mas a noite lá fora espreita.

domingo, 4 de maio de 2008

Début

Les mots
Volent libres
Quelqu’un l’a dit
Comme des bulles de savon.
Mes rêves
Où mes mains les peuvent
atteindre.
Mes tristesses
Elles restent dans l’air
Mais elles ne peuvent pas
Sortir. Me délivrer.
Mais je ne suis plus triste.

Seule. Simple.
Une fleur. Un oiseau.
Les images sont très
Banale.
Combien de temps jusqu’à ce que je...?

Le silence d’élève. Je ne sais pas. Rien.

J’ écris et
Tout est cliché!
Je m’en fous.
Je danse la petite valse,
Je souris.
Je ne cours pas.
C’est juste le début.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Sorriso


Quem disse que eu não podia
Recuperar um sorriso?
Das profundezas de onde a vida coloca a gente,
Do fundo do poço de angústias,
Diretamente da outra dimensão que chamamos de passado.

Sonhos, projeções e irrealidade?
Conflitos. Loucura. Marginalidade.
(Odeio a vida nessa cidade)

Eis que no meio do caos
De matéria-prima duvidosa, visto que é como chama,
Embriagando os sentidos numa explosão
(Antigamente isso era compulsório, hoje não)
Faz-se presente um aviso de incêndio.

Pra alimentar minha saudade
Pra aumentar a minha vontade
De que volte aquela que nunca se foi.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Queda


O menino olha pra tela e vê o cursor sumir e aparecer. Por apenas alguns segundos ele se sente piscando para vida e tenta começar a escrever e não consegue. Antigamente, quantas folhas já teriam sido jogadas no lixo, após infrutíferas tentativas de criar, de transformar um vazio em algo com significado, com classe! Dar forma ao que é tão caótico, seus sentimentos, seus desejos. Ele sente os sentimentos e os desejos, correndo pelas veias, à flor da pele. Ele sente e deixa que elas formem uma bola em seu estômago, para que os dedos possam regurgitar, mas é como se os dedos empedernissem. O menino tenta, mas as palavras saem cruas, saem doloridas. Ele tenta tecer o texto, mas o menino é a Penélope. Tece e desmancha, antes mesmo de tecer de fato. As idéias se embaralham. O menino se sente perdido. Ele quer falar, mas a voz não sai. Daí, ele tenta gritar e o grito sai disforme,e o assusta. Ele busca os tesouros dentro de si, mas só encontra portas fechadas, plaquinhas de fechado pra almoço. Ele busca tempo para refletir e cozinhar as idéias, mas ao ver-se deparado com sua tela, com seus instrumentos e pincéis, ele olha para o beija-flor na janela, e fascinado pelo seu farfalhar de asas, o menino se perde em pensamentos. Quando se percebe no lugar onde está, o menino tem de ir. Ele não se sente Narciso. Ele olha pra sua imagem em forma de palavras, ele enxerga seu reflexo a superfície e nas profundezas do que escreve, mas ele não consegue se perder. Ele sente fome, e vai-se. O menino torna o nascer do sol em eclipse. Ele se sente eclipsado e nas trevas, ao invés de aproveitar o escuro para poder tentar inventar a luz, ele fica só ali, semi-dormente. O menino tenta se enganar, que o que havia ali se foi, ou que a lagarta-escritora virou uma borboleta-acadêmica, mas ele se perde como lagarto e como borboleta e sente a miopia de quem tenta se enxergar e não consegue. Onde estão seus óculos, menino? Onde está a inspiração, que permite que você tenha material sob o qual poderá trabalhar e criar? As musas devem estar de férias, ou se mudaram. Que se mudem as musas. Bota uma plaquinha, menino! Vou ditar: Precisa-se de inspiração. Paga-se bem, com Beleza e Graça. Sorte que você tem a Internet, né, menino? Bota lá o anúncio. O menino não tece, ou melhor, ele tece e desmancha, ele tece e se entristece. Mas parece ser uma tristeza insossa. Tente alegrar-se, menino! Levanta essa cabeça! O menino se alegra, mas é alegria de domingo, preguiçosa e antecipante do seu fim. Alegria inodora. O menino tenta refletir, mas os pensamentos são frios, são apenas pensamentos e eles não se permitem virarem forma, são lodo, escorregam por entre os dedos da memória. Razão pura, sem imaginação, só veracidade, sem mediação, insipiente. O menino dorme mas não sonha. Ou, se sonha, ele não lembra de seus sonhos. Mas o menino se imagina no útero, com placenta e tudo. (Mas como o menino consegue imaginar se privado de Imagination? Seria Fancy?) Talvez um dia ele renasça!