domingo, 11 de maio de 2008
Domi(re e veja)ngo
Eu perambulo pelo centro. Sei qual é meu destino. O vento frio de maio castiga minha face. Vento cortante. Sob a proteção de duas blusas eu tremo. Depois de ter bebido doses de verdade e de poesia, eu ando pela Consolação sozinho agora, e tento não deixar que a luz amarelada dos postes penetre na minha alma. “Ai companhero, não teria uns 20 centavos pra me ajudar?” Eu me fecho como uma concha ao toque, como uma tartaruga que se recolhe ao casco. “Não não tenho!” e ora que havia acabado de mirar o abismo, acabado de perceber onde estava de fato, de maneira figurada. E não faço nada. Continuo caminhado paralelo aos montes de cobertores finos e embolados que deixam aparecer um pé desnudo sob o chão frio da calçada. Nenhum movimento. Haveria uma, duas pessoas? Quase um ano e eu quase nunca ando pelo centro à noite. E quando ando, sinto a poesia me dominando. Os porteiros que trabalham neste domingo noturno que preludia uma alvorada semana de labuta, fria madrugada se anuncia. Eles passam aos pares, rindo, por vezes, de toca ou cachecol, olhares atentos, fechados, tá-olhando-o-quemente. Cachorros de casaquinho (e os vinte centavos de bermuda, me recordo). Jovens, velhos, e logo o vinho e o piano invadem meus sentidos na esquina da Avanhadava com suas luzinhas, sua fonte ininterrupta no calor ou no frio. Parece a Europa. Passo pelos valetes que sorriem para os carros filmados e para os taxis. Olho para o restaurante de seis talheres e duas taças. Os cabelos brancos se empanturram. Velas tremulando sobre as mesas me lembram da vela que acabara de apagar lentamente sufocando a si mesma. Mais sorrisos, e o silencio da noite e do vento e dos pensamentos cortado por um grito de mulher: “Feliz dias das mães”. E eu longe de minha. Mais cobertores pelo chão, sob o viaduto, bem iluminado. Haveria duas, três pessoas ali amontoadas? Difícil dizer. A raiva me esquenta. Tiro as mãos dos bolsos e as deixo pendendo. As janelinhas dos prédios brilham em colorido de imagens que vão se alternando na velocidade da luz. Chego ao meu destino, mas a noite lá fora espreita.
domingo, 4 de maio de 2008
Début
Les mots
Volent libres
Quelqu’un l’a dit
Comme des bulles de savon.
Mes rêves
Où mes mains les peuvent
atteindre.
Mes tristesses
Elles restent dans l’air
Mais elles ne peuvent pas
Sortir. Me délivrer.
Mais je ne suis plus triste.
Seule. Simple.
Une fleur. Un oiseau.
Les images sont très
Banale.
Combien de temps jusqu’à ce que je...?
Le silence d’élève. Je ne sais pas. Rien.
J’ écris et
Tout est cliché!
Je m’en fous.
Je danse la petite valse,
Je souris.
Je ne cours pas.
C’est juste le début.
Volent libres
Quelqu’un l’a dit
Comme des bulles de savon.
Mes rêves
Où mes mains les peuvent
atteindre.
Mes tristesses
Elles restent dans l’air
Mais elles ne peuvent pas
Sortir. Me délivrer.
Mais je ne suis plus triste.
Seule. Simple.
Une fleur. Un oiseau.
Les images sont très
Banale.
Combien de temps jusqu’à ce que je...?
Le silence d’élève. Je ne sais pas. Rien.
J’ écris et
Tout est cliché!
Je m’en fous.
Je danse la petite valse,
Je souris.
Je ne cours pas.
C’est juste le début.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Sorriso
Quem disse que eu não podia
Recuperar um sorriso?
Das profundezas de onde a vida coloca a gente,
Do fundo do poço de angústias,
Diretamente da outra dimensão que chamamos de passado.
Sonhos, projeções e irrealidade?
Conflitos. Loucura. Marginalidade.
(Odeio a vida nessa cidade)
Eis que no meio do caos
De matéria-prima duvidosa, visto que é como chama,
Embriagando os sentidos numa explosão
(Antigamente isso era compulsório, hoje não)
Faz-se presente um aviso de incêndio.
Pra alimentar minha saudade
Pra aumentar a minha vontade
De que volte aquela que nunca se foi.
Recuperar um sorriso?
Das profundezas de onde a vida coloca a gente,
Do fundo do poço de angústias,
Diretamente da outra dimensão que chamamos de passado.
Sonhos, projeções e irrealidade?
Conflitos. Loucura. Marginalidade.
(Odeio a vida nessa cidade)
Eis que no meio do caos
De matéria-prima duvidosa, visto que é como chama,
Embriagando os sentidos numa explosão
(Antigamente isso era compulsório, hoje não)
Faz-se presente um aviso de incêndio.
Pra alimentar minha saudade
Pra aumentar a minha vontade
De que volte aquela que nunca se foi.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Queda

O menino olha pra tela e vê o cursor sumir e aparecer. Por apenas alguns segundos ele se sente piscando para vida e tenta começar a escrever e não consegue. Antigamente, quantas folhas já teriam sido jogadas no lixo, após infrutíferas tentativas de criar, de transformar um vazio em algo com significado, com classe! Dar forma ao que é tão caótico, seus sentimentos, seus desejos. Ele sente os sentimentos e os desejos, correndo pelas veias, à flor da pele. Ele sente e deixa que elas formem uma bola em seu estômago, para que os dedos possam regurgitar, mas é como se os dedos empedernissem. O menino tenta, mas as palavras saem cruas, saem doloridas. Ele tenta tecer o texto, mas o menino é a Penélope. Tece e desmancha, antes mesmo de tecer de fato. As idéias se embaralham. O menino se sente perdido. Ele quer falar, mas a voz não sai. Daí, ele tenta gritar e o grito sai disforme,e o assusta. Ele busca os tesouros dentro de si, mas só encontra portas fechadas, plaquinhas de fechado pra almoço. Ele busca tempo para refletir e cozinhar as idéias, mas ao ver-se deparado com sua tela, com seus instrumentos e pincéis, ele olha para o beija-flor na janela, e fascinado pelo seu farfalhar de asas, o menino se perde em pensamentos. Quando se percebe no lugar onde está, o menino tem de ir. Ele não se sente Narciso. Ele olha pra sua imagem em forma de palavras, ele enxerga seu reflexo a superfície e nas profundezas do que escreve, mas ele não consegue se perder. Ele sente fome, e vai-se. O menino torna o nascer do sol em eclipse. Ele se sente eclipsado e nas trevas, ao invés de aproveitar o escuro para poder tentar inventar a luz, ele fica só ali, semi-dormente. O menino tenta se enganar, que o que havia ali se foi, ou que a lagarta-escritora virou uma borboleta-acadêmica, mas ele se perde como lagarto e como borboleta e sente a miopia de quem tenta se enxergar e não consegue. Onde estão seus óculos, menino? Onde está a inspiração, que permite que você tenha material sob o qual poderá trabalhar e criar? As musas devem estar de férias, ou se mudaram. Que se mudem as musas. Bota uma plaquinha, menino! Vou ditar: Precisa-se de inspiração. Paga-se bem, com Beleza e Graça. Sorte que você tem a Internet, né, menino? Bota lá o anúncio. O menino não tece, ou melhor, ele tece e desmancha, ele tece e se entristece. Mas parece ser uma tristeza insossa. Tente alegrar-se, menino! Levanta essa cabeça! O menino se alegra, mas é alegria de domingo, preguiçosa e antecipante do seu fim. Alegria inodora. O menino tenta refletir, mas os pensamentos são frios, são apenas pensamentos e eles não se permitem virarem forma, são lodo, escorregam por entre os dedos da memória. Razão pura, sem imaginação, só veracidade, sem mediação, insipiente. O menino dorme mas não sonha. Ou, se sonha, ele não lembra de seus sonhos. Mas o menino se imagina no útero, com placenta e tudo. (Mas como o menino consegue imaginar se privado de Imagination? Seria Fancy?) Talvez um dia ele renasça!
domingo, 9 de março de 2008
Vênus em escorpião
Caro Sr. R...
Venho por meio desta e com todo prazer dizer que gostaria muito de mandar-lhe a merda. Simplesmente porque você foi desagradável o suficiente para me criticar em algo que é incriticável. Vou explicar o meu ponto.
Segundo sua pessoa, faço parte de uma espécie de pessoa que tem o irritante hábito de perceber a realidade por um prisma um tanto quanto distorcido. Vejo tudo pelos olhos de Eros, tinjo tudo com as cores da paixão carnal, das ambiguidades discursivas, deixo o sexo invadir cada fresta e parte do meu serzinho, uma ontologia que deixaria Freud orgulhoso. Mas estas não foram suas palavras. Segundo você, com todo respeito implícito na frase: “You are a bitch”. Bom, colocado nestes termos, com a licença poética dos pedintes, dada ênfase à sua entonação peculiar, “Eu podia estar ‘robando’, eu podia estar ‘matano’, eu podia estar paquerando, eu podia estar transando, mas estou aqui, escrevendo pra você” com o intuito de te esclarecer o que as coisas são de fato, para que no futuro você possa evitar enunciar certas frases descuidadas que só servem para aborrecer o ouvinte e... Bom, deixe-me parar de me justificar e ir direto ao ponto.
A princípio, eu não me aborreci com o que você falou. Mas foram palavras (não necessariamente sábias) que me fizeram refletir, pensar por dias e dias, reparar nas minhas atitudes, desde as menores, e cheguei a uma conclusão. Vou enumerar os argumentos para que você possa seguir cada um com bastante cuidado e, na pressa de ler tudo logo, não pule nenhum. Veja que, mesmo contrariado, busco fazer o melhor pro meu caro leitor.
Primeiramente, queria dizer que vivemos numa era da imagem. Somos filhos da televisão. Nossa mãe bastarda. E nela, o que impera é a propaganda. Uma das grandes rainhas da pós-modernidade, ela resolveu apelar para o que havia de mais puro dentro de nós, de mais primordial e eis que o sexo está em toda parte. Qualquer produto pode ser associado a ele. Corpos, desejos, possibilidades. Você vai ficar bonito, você vai ficar legal, você vai ficar o que você quiser desde que adquira já este produto. Folheie uma revista qualquer. Veja se nas fotos, nos olhares fulminantes e nas bocas carnudas. Você não vê o sexo? Mas dizer que tudo o que influi são as propagandas, que por anos e anos vão ajudando a moldar nossa subjetividade, não basta. Vamos além.
Segundamente, vivemos numa era de satisfação rápida. Tudo precisa ser pra ontem. Tudo precisa ser agora. Um olhar vira um enlace de mãos, que vira um beijo ou qualquer outro contato, que vira uma explosão de luxúria, que finalmente vira só um fragmento, um episódio. As formas de satisfação vão se multiplicando, e vivemos a era da monomania. A era dos prazeres viciosos, porque fora deles a vida é tão insipiente, tão torpe e insossa. A vida vira uma grande adolescência, e a adolescência se resume a uma grande busca pelo prazer. Religião e hedonismo se misturam, se confundem. Ave meu corpo, cheio de músculo, bendito seja vós entre os homens e as mulheres, bendito seja o fruto de vossa malhação, capa de revista. Santa cosmética e moda do ano roguem por nós, lindos e maravilhosos, agora e na hora que alguém estiver olhando, amém. Dessa forma, como não se deixar levar pela explosão e pela força viciante que tem o calor de outro corpo, a possibilidade de poder se locupletar, de se masturbar a um, a dois, a três. Afinal, o que se tornou a instituição sexual hoje senão uma grande arte masturbatória onde a presença do outro é sempre secundária e espectral. Você tem que ter a performance perfeita, mostrar serviço, mostrar que se importa, que se interessa, que consegue, que é igual a todos os outros que vieram antes. Você você você... cadê o outro mesmo?
Terceiramente, pra minha sorte ou azar, acabei por deitar minhas mãos em um livro muito interessante, não que tenha sido extremamente loquaz em seus argumentos de forma a me convencer e imputar-me novas crenças, mas sim, parecia um espelho em que se materializava aquilo que eu pensava: que o sexo pode ser visto como uma libertação utópica.
Num mundo todo coordenado e administrado, tudo controlado pelas instituições, nossa vida toda sendo invadida pelas ordenações objetivas que vão se subjetivando e nos transformando em zumbis. Daí, vem um tiozinho e fala que o sexo pode ser um dos primeiros passos para a libertação deste sistema. Um ponto onde o controle não podia se impor de forma segura e por isso mesmo, poderia permitir uma virada. Reflexo ou parte disso, temos os anos 60 e 70! Viva os hippies? Não, mas eles deram um grande passo em uma outra direção. Daí, você me perguntaria, por que eu não me torno um neo-hippie, com roupas hippies, vivendo hippiemente. Bom, porque acho que só isso também não vai servir pra solucionar o dilema. E porque tivemos os anos 80 e 90 aí no meio. Precisamos de mediação.
Quartamente, ainda que ligado aos dois fatores anteriores, antes de consolidar repressão e tabu, pode-se conhecer o que é o sexo. Bem na fase de consolidação, de construção de identidade, e não me refiro agora ao todo (apesar de saber que muitos passam pelo mesmo), pode-se ter acesso precoce ao mundo do prazer. Assim, intervalos de irracionalismos não me assustam. Animalizar-me não significa perder-me, ainda que hoje em dia, abrir mão de todo o aparato racional seja quase apenas possível em um instante. E pra se somar a isso, está meu amor pela Beleza. Ela me cativa, tudo aquilo que sinto ser elevado me toca, mexe comigo, me apazigua, me alimenta. E por ter perdido o tabu e a repressão, não me seguro pra ter, pra compartilhar dessa beleza, frui-la na forma que for possível. Usando de todos os sentidos em algum sentido.
Quintamente, segundo meu mapa astral, tenho Vênus em escorpião. Sabe o que significa isso? Em termos astrológicos, é misturar coca-cola com mentos, bicarbonato de sódio e vinagre. Sei que você diria que tal argumento é inválido, mas o importante é notar que meu critério aqui não se refere ao que você acredita ou não, mas às diversas possibilidades e explicações existentes para que você veja que as coisas são um pouco mais complexas do que parecem ser no momento, que eu falo mais do que faço, que controlo e ao mesmo tempo, não consigo controlar o que sinto, ou nem quero.
Termino com saudações cordiais de quem sabe que você diz o que diz mais pra você mesmo do que pra mim. E de quem vai continuar a ficar tão animado quanto possível, ainda que nunca ingenuamente, com o prazer que tem.
The tone
Venho por meio desta e com todo prazer dizer que gostaria muito de mandar-lhe a merda. Simplesmente porque você foi desagradável o suficiente para me criticar em algo que é incriticável. Vou explicar o meu ponto.
Segundo sua pessoa, faço parte de uma espécie de pessoa que tem o irritante hábito de perceber a realidade por um prisma um tanto quanto distorcido. Vejo tudo pelos olhos de Eros, tinjo tudo com as cores da paixão carnal, das ambiguidades discursivas, deixo o sexo invadir cada fresta e parte do meu serzinho, uma ontologia que deixaria Freud orgulhoso. Mas estas não foram suas palavras. Segundo você, com todo respeito implícito na frase: “You are a bitch”. Bom, colocado nestes termos, com a licença poética dos pedintes, dada ênfase à sua entonação peculiar, “Eu podia estar ‘robando’, eu podia estar ‘matano’, eu podia estar paquerando, eu podia estar transando, mas estou aqui, escrevendo pra você” com o intuito de te esclarecer o que as coisas são de fato, para que no futuro você possa evitar enunciar certas frases descuidadas que só servem para aborrecer o ouvinte e... Bom, deixe-me parar de me justificar e ir direto ao ponto.
A princípio, eu não me aborreci com o que você falou. Mas foram palavras (não necessariamente sábias) que me fizeram refletir, pensar por dias e dias, reparar nas minhas atitudes, desde as menores, e cheguei a uma conclusão. Vou enumerar os argumentos para que você possa seguir cada um com bastante cuidado e, na pressa de ler tudo logo, não pule nenhum. Veja que, mesmo contrariado, busco fazer o melhor pro meu caro leitor.
Primeiramente, queria dizer que vivemos numa era da imagem. Somos filhos da televisão. Nossa mãe bastarda. E nela, o que impera é a propaganda. Uma das grandes rainhas da pós-modernidade, ela resolveu apelar para o que havia de mais puro dentro de nós, de mais primordial e eis que o sexo está em toda parte. Qualquer produto pode ser associado a ele. Corpos, desejos, possibilidades. Você vai ficar bonito, você vai ficar legal, você vai ficar o que você quiser desde que adquira já este produto. Folheie uma revista qualquer. Veja se nas fotos, nos olhares fulminantes e nas bocas carnudas. Você não vê o sexo? Mas dizer que tudo o que influi são as propagandas, que por anos e anos vão ajudando a moldar nossa subjetividade, não basta. Vamos além.
Segundamente, vivemos numa era de satisfação rápida. Tudo precisa ser pra ontem. Tudo precisa ser agora. Um olhar vira um enlace de mãos, que vira um beijo ou qualquer outro contato, que vira uma explosão de luxúria, que finalmente vira só um fragmento, um episódio. As formas de satisfação vão se multiplicando, e vivemos a era da monomania. A era dos prazeres viciosos, porque fora deles a vida é tão insipiente, tão torpe e insossa. A vida vira uma grande adolescência, e a adolescência se resume a uma grande busca pelo prazer. Religião e hedonismo se misturam, se confundem. Ave meu corpo, cheio de músculo, bendito seja vós entre os homens e as mulheres, bendito seja o fruto de vossa malhação, capa de revista. Santa cosmética e moda do ano roguem por nós, lindos e maravilhosos, agora e na hora que alguém estiver olhando, amém. Dessa forma, como não se deixar levar pela explosão e pela força viciante que tem o calor de outro corpo, a possibilidade de poder se locupletar, de se masturbar a um, a dois, a três. Afinal, o que se tornou a instituição sexual hoje senão uma grande arte masturbatória onde a presença do outro é sempre secundária e espectral. Você tem que ter a performance perfeita, mostrar serviço, mostrar que se importa, que se interessa, que consegue, que é igual a todos os outros que vieram antes. Você você você... cadê o outro mesmo?
Terceiramente, pra minha sorte ou azar, acabei por deitar minhas mãos em um livro muito interessante, não que tenha sido extremamente loquaz em seus argumentos de forma a me convencer e imputar-me novas crenças, mas sim, parecia um espelho em que se materializava aquilo que eu pensava: que o sexo pode ser visto como uma libertação utópica.
Num mundo todo coordenado e administrado, tudo controlado pelas instituições, nossa vida toda sendo invadida pelas ordenações objetivas que vão se subjetivando e nos transformando em zumbis. Daí, vem um tiozinho e fala que o sexo pode ser um dos primeiros passos para a libertação deste sistema. Um ponto onde o controle não podia se impor de forma segura e por isso mesmo, poderia permitir uma virada. Reflexo ou parte disso, temos os anos 60 e 70! Viva os hippies? Não, mas eles deram um grande passo em uma outra direção. Daí, você me perguntaria, por que eu não me torno um neo-hippie, com roupas hippies, vivendo hippiemente. Bom, porque acho que só isso também não vai servir pra solucionar o dilema. E porque tivemos os anos 80 e 90 aí no meio. Precisamos de mediação.Quartamente, ainda que ligado aos dois fatores anteriores, antes de consolidar repressão e tabu, pode-se conhecer o que é o sexo. Bem na fase de consolidação, de construção de identidade, e não me refiro agora ao todo (apesar de saber que muitos passam pelo mesmo), pode-se ter acesso precoce ao mundo do prazer. Assim, intervalos de irracionalismos não me assustam. Animalizar-me não significa perder-me, ainda que hoje em dia, abrir mão de todo o aparato racional seja quase apenas possível em um instante. E pra se somar a isso, está meu amor pela Beleza. Ela me cativa, tudo aquilo que sinto ser elevado me toca, mexe comigo, me apazigua, me alimenta. E por ter perdido o tabu e a repressão, não me seguro pra ter, pra compartilhar dessa beleza, frui-la na forma que for possível. Usando de todos os sentidos em algum sentido.
Quintamente, segundo meu mapa astral, tenho Vênus em escorpião. Sabe o que significa isso? Em termos astrológicos, é misturar coca-cola com mentos, bicarbonato de sódio e vinagre. Sei que você diria que tal argumento é inválido, mas o importante é notar que meu critério aqui não se refere ao que você acredita ou não, mas às diversas possibilidades e explicações existentes para que você veja que as coisas são um pouco mais complexas do que parecem ser no momento, que eu falo mais do que faço, que controlo e ao mesmo tempo, não consigo controlar o que sinto, ou nem quero.
Termino com saudações cordiais de quem sabe que você diz o que diz mais pra você mesmo do que pra mim. E de quem vai continuar a ficar tão animado quanto possível, ainda que nunca ingenuamente, com o prazer que tem.
The tone
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Diálogos III
Platão: Soube que você tem escrito alguns diálogos, é belo?
The tone: Sim senhor. Por quê?
Platão: Simples. Com que autoridade você os tem escrito?
The tone: Sob a de ninguém. Tem que ter a sua permissão?
Platão: Não! Mas tem que manter uma certa propriedade. Por acaso seus diálogos apresentam uma estrutra dialética, no sentido clássico?
The tone: Na verdade, não sei. Só que sinto umas coisas, uma sensação de divisão, uns dilemas. Daí, começo a escutar duas vozinhas na minha cabeça. Cada parte de mim, cada papel social que eu assumo toma voz e vai dando sua opinião.
Platão: E você chega a alguma conclusão?
The tone: Normalmente, duas vozes, as mais extremas são as que se sobrepõe às demais, intermediárias. Os extremos crescem, como se um elevasse o outro. Como se tivessem atrelados ou algemados. E o dilema vai se intensificando. Fico realmente divido. Como diria um amigo, viro sujeito cindido.
Platão: Mas daí, com quem você conversa?
The tone: Eu busco materializar um aspecto das minhas dúvidas e angústia em uma figura externa que faz parte da minha vida. Alguma figura com a qual eu gostaria de discutir aquele ponto específico, apesar de saber pouco ou nada deles. Na verdade, nao converso com o que eles são, mas eles sao apenas partes de mim, sabe? É como se eu estivesse conversando comigo mesmo.
Platão: Mas e a conclusão? A síntese?
The tone: Bom, essa está sempre alem do diálogo. Este só existe porque a sintese ainda não veio. É apenas a externalização da pergunta, não da resposta. Não tenho a resposta, e nem sei se ela existe de fato.
Platão: E o que você me diria de dialogar com o que as pessoas foram, quero dizer, com o que elas escreveram, ipsis-litterimente?
The tone: Acho que pode ser uma outra alternativa, um outro modo de dialogar, mas daí, não estarei dialogando propriamente com minhas indagações mais profundas, e sim, com algo que vem de fora e me atinge, mas não estou fechado para isso.
Platão: Falando em fechar, acho que está na hora de terminar este diálogo. Você sabe como fazê-lo?
The tone: Não. Nunca sei como terminar. O senhor me ensina?
The tone: Sim senhor. Por quê?
Platão: Simples. Com que autoridade você os tem escrito?
The tone: Sob a de ninguém. Tem que ter a sua permissão?
Platão: Não! Mas tem que manter uma certa propriedade. Por acaso seus diálogos apresentam uma estrutra dialética, no sentido clássico?
The tone: Na verdade, não sei. Só que sinto umas coisas, uma sensação de divisão, uns dilemas. Daí, começo a escutar duas vozinhas na minha cabeça. Cada parte de mim, cada papel social que eu assumo toma voz e vai dando sua opinião.
Platão: E você chega a alguma conclusão?
The tone: Normalmente, duas vozes, as mais extremas são as que se sobrepõe às demais, intermediárias. Os extremos crescem, como se um elevasse o outro. Como se tivessem atrelados ou algemados. E o dilema vai se intensificando. Fico realmente divido. Como diria um amigo, viro sujeito cindido.
Platão: Mas daí, com quem você conversa?
The tone: Eu busco materializar um aspecto das minhas dúvidas e angústia em uma figura externa que faz parte da minha vida. Alguma figura com a qual eu gostaria de discutir aquele ponto específico, apesar de saber pouco ou nada deles. Na verdade, nao converso com o que eles são, mas eles sao apenas partes de mim, sabe? É como se eu estivesse conversando comigo mesmo.
Platão: Mas e a conclusão? A síntese?
The tone: Bom, essa está sempre alem do diálogo. Este só existe porque a sintese ainda não veio. É apenas a externalização da pergunta, não da resposta. Não tenho a resposta, e nem sei se ela existe de fato.
Platão: E o que você me diria de dialogar com o que as pessoas foram, quero dizer, com o que elas escreveram, ipsis-litterimente?
The tone: Acho que pode ser uma outra alternativa, um outro modo de dialogar, mas daí, não estarei dialogando propriamente com minhas indagações mais profundas, e sim, com algo que vem de fora e me atinge, mas não estou fechado para isso.
Platão: Falando em fechar, acho que está na hora de terminar este diálogo. Você sabe como fazê-lo?
The tone: Não. Nunca sei como terminar. O senhor me ensina?
Conversão
Na esteira de quem está recuperando um pouquinho do passado, um poema-confissão que mostra um poucão de quem eu fui e um pouquinho do que ainda sou.
Mais uma busca chegou ao fim.
Não quero. Não gosto. Não falo. Não posso.
A dor dá lugar a um novo matiz celeste.
As estrelas são outras. Mudam-se os santos.
Porém os velhos hábitos encalacrados e livres dentro de mim flutuam
Livres, dentro de uma prisão que sou eu.
Serão expurgados, e levados com o resto do lixo que repousa na sarjeta pela manhã!
È hora de mudar e de decidir,
Novos processos que levam a novas preocupações que desembocam em novos resultados.
Uma versão melhorada, ainda que carbonada, de mim.
Velhos amigos que retornam, velhas feridas, já cicatrizadas. Velhos hábitos que retornam.
Porém devo dar a eles uma nova roupagem, já que são diferentes em essência.
Chega de reformas! Estou cansado de simples arranjos que me mantém o mesmo que eu era e fui há anos!
Só a Revolução vai mudar o que sou! E ela começa aqui dentro.
Invoco a quebra, a ruptura com a mesma sede e devoção de quem invoca um Deus.
Me fecho, implodo, depois explodo e renasço.
Vou ser além de mim. Logo... Agora.
26-10-2006. Ônibus na Rebouças. 17:00
Mais uma busca chegou ao fim.
Não quero. Não gosto. Não falo. Não posso.
A dor dá lugar a um novo matiz celeste.
As estrelas são outras. Mudam-se os santos.
Porém os velhos hábitos encalacrados e livres dentro de mim flutuam
Livres, dentro de uma prisão que sou eu.
Serão expurgados, e levados com o resto do lixo que repousa na sarjeta pela manhã!
È hora de mudar e de decidir,
Novos processos que levam a novas preocupações que desembocam em novos resultados.
Uma versão melhorada, ainda que carbonada, de mim.
Velhos amigos que retornam, velhas feridas, já cicatrizadas. Velhos hábitos que retornam.
Porém devo dar a eles uma nova roupagem, já que são diferentes em essência.
Chega de reformas! Estou cansado de simples arranjos que me mantém o mesmo que eu era e fui há anos!
Só a Revolução vai mudar o que sou! E ela começa aqui dentro.
Invoco a quebra, a ruptura com a mesma sede e devoção de quem invoca um Deus.
Me fecho, implodo, depois explodo e renasço.
Vou ser além de mim. Logo... Agora.
26-10-2006. Ônibus na Rebouças. 17:00
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