sexta-feira, 27 de março de 2009

Starless Sky (yet it feels like home)

O menino não pode ver nenhuma estela nessa noite nublada e fria. Nessa noite em sua alma. Ele sabe que elas estão lá, mas ele perde o norte e se sente desamparado, posto que ele pensa que elas igualmente não podem olhar por ele.

Ele não enxerga o caminho e não sabe por onde começar. Só escuta os murmúrios da noite. Sons que viram formas disformes na sua cabeça. Seus pensamentos lagarticham, pois, em perigo, desembestam para o infinito deixando apenas o rabo.

O menino se lembra de surpresa, da descoberta e percebe que falou. Pobre menino! Ele tateia no escuro por um rosto que nunca esteve La, nem nunca vai estar. Ele se acalma e ri.

Mas o menino vê dois vaga-lumes dançando na noite. Eles se aproximam e se repelem, numa dança silenciosa. O brilho dos insetinhos o lembra dos olhos dele. Sua imagem, seu sorriso franco e sua boca luxuriosa. Aquele que foi de verdade.

O menino respira fundo. Planta uma lágrima na palma da mão e ela vira um gênio, rodopiando, curioso, sem limites, se dissipa.

Ele sabe que o que é solido desmancha no ar, e o que está no ar vira pensamento e poesia. O menino, então, vibra e se derrete. Ele sorrindo, futuriza, na torcida que seu futuro seja o delicioso e completo fracasso de seu presente.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Mind the Gap

Uma vez eu disse pra alguém que as pessoas eram como pontes. Não conseguimos chegar de um ponto a outro na nossa vida sem a mediação dos que nos cercam. Uns nos levam mais longe do que podíamos imaginar, outros alguns milímetros adiante (e tem gente que tem a impressão de estar até indo pra trás)....

Ele chegou e eu pude ver que havia ali alguma coisa estranha. Senti de cara uma sensação boa, promissora. Nossos santos bateram. Rolou uma energia gracinha. Simpatizamos. E assim, não podíamos fazer nada senão nos entregar a conversas das mais variadas. Falamos de mim, dele, da vida, do futuro, do passado. De pessoas, de coisas, chorei e ele sorriu. Sorri e ele chorou. Disse que aquele sorriso era uma obra de arte. Falamos das grandes coisas do mundo, e a companhia dele foi tão apaziguadora que minhas tormentas internas viraram brisas. Ele balançava a cabeça e me entendia, parecia me entender melhor que eu mesmo. As horas iam passando e estávamos ali, como se o tempo houvesse congelado, como se tudo fosse um sonho, mas sem despertar.


Uma vez discuti a seguinte hipótese. Usamos as pessoas? Muita gente não gosta de ser usado e atribui a esse termo uma conotação derrogatória, ofensiva. Porém, mesmo que não queiramos, parece que conseguimos tirar certa vantagem da presença das pessoas, uma utilidade ou propósito que elas servem dentro de nossas vidas. Uma nos ensina por seus atos, por suas palavras, outra nos dá, outra toma de nós. E nessa rede, vamos nos aproveitando de tudo para crescer ou, simplesmente, para sobreviver.

Ele ficava me olhando fixamente enquanto eu falava, uma palavra atrás da outra, sem respirar, meio que com raiva das vírgulas que tinha que fazer, pois havia tanto a ser dito. Mantinha uma certa distância porque tinha medo de revelar demais. Sabia que eu estava acostumado e era bastante conivente com meus próprios caprichos, mas não podia deixar de imaginar que de fora, fora do contexto todo da minha vida, aqueles caprichos e desejos eram qualquer coisa, menos algo bom. Mas ele era tão eu, que não podia deixar de revelar os meus mais recônditos segredos, ele era um universo em consonância com o meu. Sentia emanar dele um calor, uma cumplicidade. Nada podia faltar para completar o quadro ou o quebra-cabeça que eu deveria ser. Ele me amava, eu estava certo. Não com o amor amadurecido pelo tempo e pelas intempéries, um amor-paixão-fogo, uma amor-descoberta.

Certa vez uma pessoa muito querida disse: “as pessoas querem pouco e em doses homeopáticas, apesar de acharem que querem o contrário”. Parece um contra-senso, já que quanto mais temos, mais queremos ter. E o que todos querem ter não é a comunhão? A comunhão completa dos seres. Não seria o amor entrega? Não seria um quebrar barreiras e um toque verdadeiro de alma com alma, sem escudos, sem máscaras?

Ele era como lava de um vulcão, descendo a ribanceira, quente, queimando tudo, acendendo meu desejo. Ele era bonito, de qualquer ângulo que eu olhasse. E eu ia chegando, ia percebendo que ele era o outro lado da minha moeda. Queria poder tocá-lo, fundir meu corpo no dele. Mas era tão cedo ainda... ele tem tantos desejos que não são eu. Será que ele me deseja como eu o desejo? Será que meu desejo é o suficiente para materializar o sonho? A cada segundo uma nova defesa derrubada, eu cantava meus defeitos como uma música dissonante, ainda assim, festiva. E finalmente, fiz evidente meu desejo, minha carne, meu espírito lançando hinos de louvor e nós dois seríamos um só.

Uma das coisas mais surpreendentes do nosso século é a habilidade que as pessoas têm em afastarem-se das outras. Li em algum lugar que está ficando cada vez menos crível a máxima de que nenhum homem é uma ilha. Cada um acaba construindo para si um mundo de projeções, de posições, de restrições. E se encastelam ali. Formam pequenos espaços que jamais podem ser completados ou ultrapassados. Tudo bem, admito que às vezes não são as pessoas que formam tais lacunas, mas a sociedade com suas tais de classes sociais, com seus tabus e simplesmente com sua tendência a desagregar.

Seu sorriso derrete e se transforma em surpresa. Seu corpo recua, sua voz fraqueja. “Mas nós somos apenas amigos!” Ele treme, “somos diferentes demais!” Vai ganhando confiança nas suas explicações, elas viram argumentos irrefutáveis. “Você é tão mais do que eu!”, vejo nele uma tentativa de não me destroçar. “Você namora, você não mora ali”. Vejo ele se afastando, ainda que ele esteja sentado na minha frente. Ele voa, como um pássaro assustado. “Não me atraio por você.” Ele já está seguro ou distante o suficiente para ser sincero, dolorosamente verdadeiro. “Só mulheres me atraem.” Ouço assim toda sorte de desculpas, de verdades e me sinto sozinho. Ele estende a mão, como se pedisse uma trégua. Mas eu nem havia declarado guerra! Ele sorri novamente, mas dessa vez, um abusado sorriso de compaixão. E ouço vir de algum lugar, não sei se de sua boca, ou de sua mente ou dos céus, posto que é como um trovão, “se você quer ser feliz, mind the gap!”

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Dry Martini

O doce som de um sax e do piano a voz negra vai invadindo os sentidos. O cheiro de álcool e o barulho da bebida caindo no copo, de outros copos batendo na mesa, de risadas abafadas, de sussurros lascivos, secretos. A porta range ao ser aberta e estala ao ser fechada. No canto uma pequena caixa cospe apenas imagens sem som, mas o silêncio foge por entre os dedos.
É quase uma da manhã. A melancolia vai ao encontro dos que não se deixaram levar pelo sono. Outro dia se foi, o novo ainda engatinha. Temeroso. E o homem sente o peso da morte e das horas.

Riscos no balcão viram mensagens criptografadas, a dança das facas, sinais do tempo corroendo tudo, corrompendo. O que tira seu olhar do balcão, elevando-o, é o fio de bebida que escorre da biqueira até o distante copo. O fio parece lembrar-lhe de sua vida como um rio, derretendo o gelo, mas tornando-se frio.
Seu copo está vazio. Mas falta-lhe energia de pedir mais uma dose. Ele olha para o copo vazio e percebe que não há nada nesse lado do universo que se pareça mais com ele do que esse copo. Sua vacuidade lhe dá conforto, segurança. Porém, como um fantasma, o vazio demonstra o que antes havia ali, quando fora preenchido, completo. Um golpe de ar entra pelo vão e faz com ele trema dos pés à cabeça. Ele quer escrever, ele quer criar, quer explodir e expandir. Mas ele está tão cansado. Ele é só um copo.

O som da jukebox já não consegue mais animá-lo. Os sussurros vão morrendo tal qual a noite. Ele põe a mão no bolso. No fundo, junto com umas moedas, ele sente a própria pele por debaixo do tecido. E um sorriso incômodo brota na sua boca. Tenta se desfazer dele, mas o sorriso insiste. Seu rosto se desfigura numa careta. Ele sente seu escroto, com a ponta do indicador e percebe que ali, no poço de sua masculinidade, de sua virilidade, ele sente a frieza do copo. Ele está estéril. As ondas de desejo que antes o dominavam, que faziam a vida pulsar através dele, se foram. Ele retira sua caneta do bolso direito da camisa e estende a mão, sem levantar os olhos, ainda num diálogo tácito com o copo vazio e alcança um guardanapo. Ele se lembra das milhares de vezes que fizera poemas em guardanapos. Mas agora, os traços não formam letras, nem desenhos, só um borrão. Nada há para expressar. E vencendo a si mesmo, coloca abaixo a caneta, depondo as armas, e se rende.

Porém, antes que ele possa realizar sua retirada estratégica, sabendo que é hora de partir pelo cheiro forte de café, o café dos bêbados, o café dos que despertam para um novo dia, ele ouve um zumbido ao pé do ouvido. Desleixadamente, ele bate no ar em busca do inseto cujo ruído havia interrompido seus pensamentos e seu torpor de derrota. Nada. O zumbido continuava. Ele até virava palavras. Quem poderia estar lhe cochichando a essa hora da manhã? Ele olha ao redor, movendo a cabeça mais rápido que imaginava concebível sob influência de tal quantidade de álcool. Mas nada há ali, nem gente nem mosquito. As palavras-zumbidos viram rimas e cadências, seria o canto das sereias? Ele fecha os olhos e ouve, sente seu coração pulsar mais rápido. São idéias, rodopiando pelo ar, ao seu redor, um carrossel supersônico. Dele. Uma lágrima embaça-lhe a vista e dá-lhe as boas novas: ele está vivo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Chain stories

Diferente do que costumo fazer, essa postagem vai ser de cunho mais informativo.
Fuçando aqui e ali, descobri um site que faz o que eu sempre tentai fazer com uns amigos (talvez tenha tentado os amigos errados): um começa uma história, o outro se junta e adiciona a sua continuação e assim a história vai crescendo, a quatro, seis ou muitas mãos.

Pois eis que encontro um site que faz exatamente isso. Você se filia ao site e pode comentar as histórias, ser um dos editores ou adicionar um capítulo novo a ela. Tudo de graça. Há uma série de outras coisas possíveis de se fazer, como avaliar (através de notas) um capítulo ou a história toda.

é em inglês, mas por que não tentar? Tomara que dê certo e que vire uma febre lá e aqui. Eu vou fazer uma propaganda e uma força pra que logo tenhamos a versão brasileira!

http://www.protagonize.com/

Boa diversão!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Poetry night - finale

So that we we finish the poems that were brought to this amazing party, we must post the two last ones.

Both are lyrics of lovely songs and they are quite meaningful to the people who brought them.
The first is "Como nossos pais" by Belchior and sung by Elis Regina in the video that follows. W. said this song was a part of his psycholgy course since the professor would always mention it, but he never quite understood why. Then, as he was about to graduate he figured it out. It's relating to our parents, our ways of living life.

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
De coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

You can see Elis singing here


The second poem or song was brought by U. for it symbolizes the state she is in lately, looking for herself, trying to figure out what she is why. It is called "Caçador de mim" and was composed by Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão and it was sung by Milton Nascimento or Zé Ramalho.

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

You can listen to the song here

Hope you have enjoyed the poems and next post back again with my stuff!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Poetry night 4

First of all, I would like to make an excuse public. In the previous post, there are two poems. The first "A banda" was written by Elton. The second "The devil is a preacher" was written by the esquizofrenético Amauri. It was not well explained and this could raise misreadings, so, I hope I have cast the ambiguity away.

In this fourth part, we have two more poems. One was brought by T. It's Carlos Drummond de Andrade's


Composição:

E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
algo que corre, peixe dúbio,
e a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas.já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.


According to her, this poem is meaningful to understand that sometimes to destroy and to dissolve are ways to be able to constuct new things.


D., on the other hand, presented us a poem by Alvaro de Campos. It is the perfect way to explain how he feels about life and the worries he has.


Estou Cansado (Álvaro de Campos)
version in English

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Poetry night 3

now I am going to post two longer poems in Portuguese.

One was taken by me, and it is a poem about happiness and music. It was written by a guy named Elton and it was one of the few pieces of his poetry which had never seen the eye of the public. According to the people there, it's just his style and there's a lot of him in it.

A banda

Hoje é um dia especial.
A banda vai tocar.
Cada um toma o seu lugar,
O espetáculo vai começar.

Um o segura com firmeza
Passa a mão pelo seu braço
Acaricia suas cordas
Elas se tensionam todas
E déin!
Sua caixa ressoa a música,
A torna mais alta, mais viva.
E suas curvas vão se encaixando
Como peças oposta de um quebra cabeça
No outro corpo.
Sem mi. Sem dó.

Outra dedilha
Suavemente sobre seus dentes,
Suas teclas. A mão vai voado sobre toda a superfície,
Mais rápido, mais rápido, mais rápido...
Movimentos que quase não acompanham o som,
Mas que são criados por esse, para impedir o vazio,
O silencio.
E a melodia vai chegando ao êxtase.
Vai diminuindo, cedendo, dando lugar ao cansaço.
Um doce cansaço que se faz presente com um agudo
Que finaliza a harmonia.

Enquanto isso, a boca dele encontra a dela, como num beijo.
E seu sopro dá-lhe vida,
Cheia de paixão ela grita, sussurra.
Ele vai tomando conta de toda sua extensão
Todos os seus orifícios, explorados carinhosamente.
Ela é quase um outro membro,
Fálica, fláutica,
Dele.

Porém nem todos na banda exigem carinhos.
A violência também é bem-vinda
Para que o gozo seja atingido.
Tapas, socos, isso impõe o ritmo.
A percussão alegra, distrai...
A pele tensiona e relaxa
Tum Tum Tum
Ele geme a cada batida
Ele bate no compasso do meu amor.



To finish this post, another longer poem which happens to be the same as the one before. It was taken by A. because it was written by a not-so-famous poet but it has a lot of him in the poem. The rhymes are captivating and the story brings sprinkles of sarcasm. And according to U., he revealed everything at the end as he normally does.
Both poems are republished here with permission of the authors. in case you liked the following poem, you can find more here

The Devil is a Preacher (^!!!^)
O diabo está a se arrumar,
pois hoje, ele vai sair pra jantar.
“Jantar hoje? Com quem?”,
há de perguntar-me alguém.
Mas lhes digo de antemão,
antes que usada em vão
seja sua voz.
Sairá pra jantar o tinhoso
Com um algoz.
Um que não é dos meus
e certamente não é dos teus.
Sairá jantar com aquele que chamam de Deus.
Um jantar de negócios, devo dizer.
Pois ambos têm assuntos de interesse, não de lazer.
Sairão para jantar então,
com o propósito de uma negociação.
Pois a situação está braba, seja aqui, na Terra
Ou na “última morada”.
E seja esta Inferno ou Céu
A recessão lá afeta, de maneira indiscriminada.
E ao se encontrarem para jantar, põe - se Deus,
A matraquear:
“Amigo Lúcio, devo dizer,
que a situação na Terra, do Céu observada,
sei que não é
mas me parece uma piada.”
“Ora Todo Poderoso, como a explica então?”
Perguntou o diabão.
“Não, posso, mas já lhe dito
o quão arrependido as vezes fico
de ter concedido aos humanos,
o dom do livre arbítrio.”
“Pois, com esta recessão,
luta família contra família,
irmão contra irmão.
E dessa situação tão cruel
como posso eu acreditar
que tenha a ver com sorte ou azar
a entradas de almas no Céu?”
“Os humanos perderam o juízo
e, como amigo, lhe aviso
que o lugar onde habito
tornar-se-á um Paraíso.”
E em toda esta discussão
Nem Polícia, nem Ladrão
chegariam a um consenso
por meio da razão.
Pois almas faltariam no Céu
e estas, para onde iriam?
Alimentar-se de fel.
Em vidas, cabeças ocas.
Em morte, companheiras do senhor das moscas.
E este, vil e trapaceiro,
Não podia estar mais faceiro,
ao propor a Deus uma barganha.
“Jogaremos pelas almas,
você as leva, se nas cartas me ganha.”
“Deus não joga pela vida de seus filhos,
mas a situação é tensa.
Então, por que dar ouvidos
a consciência pretensa ?”
E à jogatina se inclinaram.
E por horas então pelejaram.
Munidos de azes e valetes.
Fumando charutos de fumaça azul.
Ouvindo Jazz ou Blues.
E Deus por fim ganhou.
As almas ele salvou.
Da mesa se levantou.
E, disfarçadinho,
picado, bem picadinho
Uma carta escondida,
O Senhor rasgou.