terça-feira, 9 de agosto de 2016

The flood - 3rd version

A new version of an old text. Other versions in here and here (Portuguese)


Trashy all over
The unsmiling boy.
Heart, mind, body.
Not sick, nor broken.
Just adding one to one.

Trying to derive some logics
out of so much nonsense.
Afraid of the process
For recycling is destruction
then rebuilding.

Not completely lost.
Where is he standing?
Pushed out of the platform,
into the tracks. Luckily,
No train.

Helping hands
He’s out again.
But something dropped there.
Something he just cannot
remember what.


Imprisoned by reactions,
so free inside the cage
of fears and disillusionments
Of vices and habits
Of expectations and hopes.

He learns (the hard way) about
no certainties, no tomorrow-I-know's. 
Aware that he had nothing.
Possessions gone, once solid
Proverbially melting in the air.

He saw himself
with a car, an apartment, a cat.
He saw himself living in More's
Utopia, Shagri-la, Mattapoisett.
Deprivation feeds on dreams.

Distant thunders roaring.
Raindrops falling and splashing
on dirty soil.
Clouds gather and darken,
drops lick his face and he knows

The storm is beautiful
and he is home
and he is there,
in its heart, and it’s nobody's fault.
Simply life.

Swimming forward, dragged sideways.
The flow of water is merciless.
So are the debris of once grandiose
edifices. Only crumbles of what was
and what he had envisioned.   

Now, revelation molds images.
Shock and relief in a shriek.
He stops swimming.
His nerves, his limbs rest.
Darkness envelops him.

Annoying warmth and light linger. 
No one is to blame but
Fear, eating him main course.
His groin hurts. Virility vanishes.
Forcedly androgynous fallen angel.

Afloat, taken by the waves,
The storm gives way
To feeble rays
of a timid sun.
Rippling water a silver lining a rainbow?


The water is lowering.
The scent of mud, still
unable to stand up
A surge of hope like
belated lightning.

Euphoria meets enchantment
and twin sweet illusions are begotten.
He builds half blinded by old
prejudices and drama new worlds, a new
language. At last no shields or cocoons.


He craves for enlightenment.
His drama explodes in a show
Of firework and laser
(the more he thinks the slower his thoughts fly by)
But that no longer scares him.

Helped by songs new and old
Is he dancing?
In a frenzy of some otherworldly
Ritual, he thumps, he is clapping.
Unsteered, uncontrolled vessel. 

Like a chorus, he chants into
Believability those words.
Darkness and light embrace
And they are one – freedom
(from himself or whatever, whomever else)

He bows and completely
awake he hears the echoes:
As natural as the rain that falls
Here comes the flood again
Or not... Or definitely not.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Diálogo


(...)
“Eu acho que não estou feliz com você.”
“Hein, mas como assim?! Você estava sorrindo hoje a tarde toda. Está tudo bem.”
“Depende o que é esse tudo bem.”
“Vamos lá, me dá um sorriso.”
(Força um sorriso)
“Mas é que tem certas coisas, subterrâneas, que correm profundas, e que precisam melhorar.”
“Lá vem você com esse seu papo poético. Estamos bem. Para de falar o contrário.”
“Posso até parar de falar, mas será que consigo parar de sentir?”
“Me dá um exemplo. Um exemplo que seja que prove a mim e ao mundo que estamos na pior.”
“Eu não gosto que você use roupa amarela.”
“Ah, mas porque você não gosta, isso significa que eu tenho que deixar de usar roupa amarela?”
“Você pode usar roupas amarelas quando estiver com as outras pessoas, porque para elas talvez isso não seja um incômodo.”
(vira os olhos)
“Acho roupas amarelas uma questão muito pequena. É um mimimi quilométrico por causa de uma coisa tão pequena.”
(suspiro)
“Pode ser pequena pra você, que não liga pra que eu vista roupa amarela, mas pra mim é algo grande. Porque dói.”
“Dói?”
(cara de descrença)
“Sim, dói. Você mesmo vestiu uma camiseta amarela mês passado.”
“Sim, mas quando a roupa amarela está em mim, ela não incomoda. Incomoda nos outros.”
“Isso é uma injustiça tremenda. Se eu parar de usar, você pode continuar usando?”
“Creio que o que incomoda as pessoas têm diferentes formas. Sempre tem alguma coisa que incomoda, mas se ela é diferente, porque eu devo medir você com a minha régua.”
“Quero te bater na cara com uma régua.”
“Você está desviando do assunto.”
“Não tem assunto nenhum.”
“Mas você deixaria de usar roupas amarelas por mim? Eu faço tudo por você.”
“Não sei. Você está tomando parte da minha liberdade em vestir o que eu quiser.”
“Mas existem tantas outras cores, azul, verde, laranja. Bege é quase amarelo.”
“Sim, mas o proibido é mais excitante.”
“Mas é o que machuca mais.”
“E você é um homem ou um saco de pêssego?”
“Não seria de batata?”
“Nem batata é tão fraquinha assim de não aguentar umas paulada.”
“Mas precisa ter paulada?”
“Acho que às vezes eu gosto de ficar sozinho.”
“Sim, eu também, mas percebe que agora eu preciso de uma resposta sua. De uma posição de comprometimento?”
“...”
“O que você me diz?”
“...”
“Tá pensando?”
“...”
“Adoro ter essas conversas com você.”

(viro para o lado. Meio adormecido, ele murmura qualquer coisa que eu traduzo como “cala a boca e vai dormir.”)

domingo, 11 de outubro de 2015

Acidentes

Ontem eu fui dormir, pensando no que
Passamos.
Uma luz tremelicava, na verdade, luzes
artificiais
Que passavam sobre a minha cabeça como flashes
enquanto
Empurram a maca. Ouvindo sirenes, e o som das suas
Lágrimas.
Chorava junto, ainda que por dentro, amortecido pela
Anestesia.

Hoje eu acordei, refletindo sobre a sua
Fragilidade
Que se amalgama com a minha e cria um corpo
Deformado
De um bicho sem espécie definida que nos
Definha.
Mas ele canta num grito alto, agudo, primitivo
Incontornável.
Um monstro verde, fogo-fátuo, cujo beijo me custou
A língua.

Amanhã eu vou acordar, com um gosto ruim
Na boca.
Das palavras que eu disse e não deveria ter
Dito.
Das desculpas aceitas pro forma, do suportável
Que não
Era nada disso. Do gosto da saudade daquilo que
Tínhamos.
Vou sentir o pó dos escombros, de um muro erigido tijolo
a tijolo.
A dor nas narinas, dificuldade de respirar, tudo culpa da
Wrecking ball.
E vou rezar pra vermos com mais clareza quando a poeira

Baixar.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Erupção



No veio onde passou a lava,
Já nasce um musguinho
Já rastejam os primeiros vermes,
Um passarinho vem bicar.
Se anuncia a primavera.

A rocha incandescente,
Poeira levantando,
A natureza guinchando
Levando calor no lombo e
A terra se amoldando.

No ajuste, mistura esqueleto,
Com galho e tronco
A terra vai se solidificando
E chia se cai na água, que se espalha
Toda vaporenta.

Por acaso aquilo é uma flor?
Ela ficou ali, ereta, chamuscadinha
No meio do inferno.
Ela sorri pra mim.
Ela tem dono, mas eu pego


e coloco no cabelo.

terça-feira, 3 de março de 2015

A enxurrada - versão 1.5

Blame, no one is to blame
As natural as the rain that falls
Here comes the flood again


Alguns trovões à distância.
O céu se enegrece pouco a pouco.
Os sons se intensificam,
medo em forma de nuvens.
Mas elas dançam a quilômetros daqui.

Ouve e vê gordas gotas
Que pingam por todos os lados.
Refestelando-se na poeira,
na sujeirice do solo.

O vento sopra em rajada,
Enregela sua espinha.
Novas gotas lambem sua face ferida

Ele entende que a tempestade é linda,
Que o medo é chuva,
Que dor é relâmpago.

Lar doce lar,
A água começa a subir,
correr para todos os lados.

Não tem piscinão.
Não fizeram plano de drenagem.


Não é culpa de ninguém. É só a vida.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Lucy in the sky with diamonds – new version

the original can be found here

The girl tries to clean up the drops of puke 
with her old handkerchief.
Then she unfolds it and sits.
What a silly girl!

She seems tired, she is so quiet.
She could not remember when
the last storm had broken 
In her sweet marmalade world.

She embraces sadness.
What an enigma! Nothing there.
So she puts on her smile.
Her face twists into a fishhook.

It is not like any smile
we would see on TV.
She puts on that devious smile.
And she looks up.

The sky is pale blue.
She tries to make it bluer,
Brighter, as she is.
But she can't.

The sky remains dim and indifferent.
Some people wave from a distance
and she is unsure whether
they are true or just a mirage.

Numb, she cannot feel anything.
The sky, the waves, herself.
A spurt of happiness spouts
in her frigid heart.

Like two bodies occupying the same spot,
Separate, the energies do not mingle.

She sees the boy approaching and cringes.
What a foolish girl!
He puts his hands between her thighs and twinkles.
But she averts her glance and looks down.

She thinks about suicide
In a green meadow, full of sunlight.
And that she has never been given
a diamond yet.

It's no fun at all, she knows she can't.
The boy starts fleeing.
The girl closes her eyes and imagines
what it would have been like if

she had not existed at all.

Now, she wishes she could blink 
in and out of existence.
What a preposterous girl!
Then, she decides to travel.

But she doesn't know if she is going to Estonia or not.
She feels Venus is no longer in Scorpio
Maybe Saturn is taking over.
What a lack of perspective, girl!

She goes to the verge of the lake
Crying, the tears ooze on her cheek toward her chin
and they blur the reflection of her own image
and that of the sky.

More tears and they are her present
to the sky under her. Her diamonds.
She wants to tell the world, but she keeps
Mute as if in a vow. That's her new voice.

She has started packing now.
Be sure you kiss her goodbye, I don't think she is ever coming back.

domingo, 30 de março de 2014

Parada


No vórtice de uma jornada,
Um lugar que não existe.
Filas, corredores, retire os objetos de metal.
Nada nos bolsos? Então mãos ao alto.
Tudo invertido.
Retire também os sapatos, mostre os furos
Na meia. Mas vista vários pares de paciência.

O chão brilhante esconde as pegadas
Dos milhares de transeuntes
Apressados. Ninguém para e observa
A simetria das fileiras de cadeiras.
Aqui dentro sopra
uma brisa fria, um novo Zéfiro,
que agora se chama A/C.

O sol pisca neon-hospital
Prateando minha pele sem protetor.
Vence, de longe, o sol de fora que,
sendo seu arqui-inimigo,
bate insistente no muro transparente
Que separa tênue a realidade
Desse sonho que vivo desperto.

Vozes, choros, anúncios.
Zumbidos, mesmo no que deveria ser
O silêncio escuro da noite.
Nem mesmo espíritos vagando, só faxineiros.
Your attention, ladies and gentlemen,
Unattended baggage. Thank you for your
Condescendência? Má sorte?

Já terminamos o embarque e
estamos lotados e lotados e lotados.
A espera vã.
Seu voo será transferido, retransferido.
Dirija-se ao novo portão. Saia daqui.
Quarto lugar, um quase pódio.
Você perdeu.

Então, Standby.
A passagem pra quem não tem passagem
Se fecha como a porta do portão.
Fica esperando o fracasso da
Chegada de outrem.
Torcendo para que te reste um lugar
nesse mundo chamado avião.