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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

De lírios - Parte V e final

(continuação Parte IV)...

Ela agora faz parte da confusão... da solidão... do vazio..... do nada.
Olha pra si mesma, um ser patético coberto de sangue e hematomas, e sente muito, se encolhe, sente por ser tão frágil, tão incompleta, tão sem sentido....
Ela se esforça, tenta de todas as maneiras se reconhecer, se pertencer, mas é em vão.
Esta não é ela. Não pode ser. Não é. Os pensamentos desordenados, a cabeça latejando.
Ela quer gritar, se libertar. Inútil. Ela já não tem mais forças, e abraça a si mesma.
Finalmente as lágrimas caem. Rolam por sua face, molham seu corpo numa tentativa inocente de lavar a alma, apagar a dor que a consome, se fortalecer e se recriar.
Ela levanta o olhar como se seus olhos pesassem mil quilos e contempla a luz do sol que cruza as grades. Fixa o olhar e tenta criar forças, se levantar. Ela se recorda do azul e do perfume dos lírios, ele se torna cada vez mais forte, mais real.....
As flores brancas, o campo, o vazio... a dor.... ele.... mas quem é ele? Quem foi? Quando?
Por quê?...... As perguntas atormentam, batem com força, insistentes, porque sim..... Ela volta a abraçar a si mesma, se encolhe, sofre, chora, se aperta, fecha os olhos e implora por paz, implora por um sono eterno. O silêncio é cortante, o perfume mais forte. Ela abre os olhos e
vê um par de asas negras.
Suas asas. Elas batem forte, automaticamente a elevando aos céus, numa velocidade estrondosa, em direção às estrelas. Ela se sente um novo cometa e sente que está voltando para casa. Ainda que sinta a umidade das lágrimas na face, e não consiga afastar do pensamento o cheiro dos lírios que lhe enchem as narinas, ela sente que sua missão terminou e isso a alegra.
Ela voa mais alto, mais rápido, quase não consegue ver as estrelas. Um anjo, uma deusa, vários poderiam ser seus nomes. Ela começa a sentir a humanidade que lhe constituía esvair-se do seu pensamento. Ela não é mais humana, não é mais mulher. Ela aprendeu a lição que ele lhe havia proposto, a grande mente que arquitetou os universos. Ela que não conseguia entender o ser humano, que observava.E não se sentia compelida a agir, ela havia sido humana, uma mulher e sentido em sua essência a dor e o vazio. Mas agora ela sabia, ela havia sido mulher e, por isso, havia concebido. Logo, a dor e o vazio seriam combatidos e eliminados. Só sobraria o cheiro dos lírios. E o amor.

(fim)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De lírios - Parte IV

(continuação da parte III)

Ela sente o frio se esvaindo e o calor vai dando lugar àquela gélida sensação. Porém, ela percebe que não está mais parada. Sente-se em movimento, e o calor vai aumentando. Pouco pode se ver dos arredores, algumas fontes de iluminação esparsas lutando contra a escuridão noturna, como vaga-lumes. Ela sente o calor aumentar e se percebe correndo. Ainda sem entender direito o que se passava, sente medo, um medo primitivo, primata, e ouve como um sino a ribombar em sua cabeça “Corra, corra!”. Ela conhece aquele caminho estranho sinuoso, sente suas pernas fatigadas a levarem para aquele lado, ora para o outro. Ela ouve e percebe que não está sozinha. Ela é a caça. Um, dois lobos a perseguem, rindo como hienas, famintos como leões. Ela decide que logo será alcançada. Procura um refúgio. Fazer-se de morta pode enganar os predadores. Ali, um muro baixo, com o mesmo impulso que trazia da corrida, apóia-se em uma das mãos e joga os pés para o alto. Porém, os pés não encontram o chão conhecido, e ela rola em si mesma, se esfolando toda. Arfando, busca levantar a cabeça, e na penumbra distingue onde se encontra. Trata-se de um jardim. Há alguns metros divisa uma casa, vê as luzes saindo da janela e pensa ouvir gargalhadas, copos. Talvez seja uma festa. Seu corpo vai esfriando enregelado pelo ar da noite, e ela sente dores por todo corpo, provavelmente presentes da queda. Estica a mão e toca em alguns arbustos baixos e ao trazer a mão ao rosto para secar a testa,e se apoiar pra sentar, sente o cheiro de lírios. Nesse instante, ela se sente erguida ao ar. Uma mão invisível, não, mãos invisíveis vão a tateando, a levantam e a afastam daquele momento de alívio. Os predadores a viram escapar, seguiram seus rastros. Ela havia falhado. Ela sente o cheiro de suor forte e masculino, e se vê imobilizada. Enxerga no escuro o brilho maligno dos olhos deles, seus sorrisos e escuta: “Aê, truta, nóis se demo bem!” Sente que não pode mover os braços, pois uma mão de aço as matem presas. Ela geme, se contorce, pensa em gritar, mas nem bem abre a boca e um grito começa a se formar, ela sente outra mão, quente e suja, áspera, contra sua boca. Sente o batom se espalhando por toda a face e o grito preso na garganta. Ela decide arrefecer e percebe que o inimigo já canta vitória certa. Sente mãos por todo seu corpo, perscrutadoras, invasivas. Ela sente e vê sua vontade reduzida a pó e fica a mercê daquelas mãos, daquele cheiro repulsivo, daquele peso contra seu corpo. Seu estomago se contrai e ela quer vomitar. Mas não consegue. Começa a sentir as lágrimas quentes escorrerem, salgando o já inseparável gosto de sangue e batom. Ela se vê invadida, humilhada, e fecha os olhos, para que não seja testemunha daquela atrocidade contra si mesma, e ao lembrar-se do cheiro dos lírios, vai se entregando a um frio, e sente que aquela repulsa vai dando lugar a uma grande paz. Ela já não sente mais medo. Mas ao abrir os olhos, ela não se sente confortável. Outra realidade, outro corpo, que ainda não é o dela. Estica as mãos e sente estar dentro de uma jaula...

(continua...)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De lírios - Parte III

(... continuação da parte II)

Sentiu que havia um papel em sua mão direita. Estava amassado. Ela abriu e não sabia como ela conseguia entender todos aqueles tracejados. Via as palavras, mas elas não lhe faziam sentido: “doze anos de ótima atividade em nossa empresa.... desligada por motivos de força maior... compensação devida... referências para novas colocações....” Ao passar os olhos por essas palavras, ela foi sentindo um crescendo de raiva, de nojo, como se mãos se fechassem em sua garganta a impedindo de respirar. Uma ânsia de vômito.
Estou presa. E um desespero passou a invadi-la. Ela quis fugir dali, e a esse pensamento, um corpo que não era seu colocou-se de pé. Ela cambaleou alguns passos, enquanto se apoiava nas paredes frias, mas de um material que ela jamais tocara, aquela textura, não era pedra ou madeira que ela já tivesse visto. Mais um passo.
De novo o frio foi lhe enregelando. Sua respiração ficava mais rápida, seu peito, que não era seu, subia e descia rapidamente. Ela fechou os olhos e de novo se sentiu envolvida pela treva e não ouvia mais som ou sentia qualquer cheiro....

Alguém bate na porta incessantemente. Ela não responde. Mais batidas. Som irritante. Insistente. Contínuo. Mais e mais batidas barulhentas até que ela se rende e pronuncia um som misto de raiva, confusão e estranheza.
O rapaz entreabre a porta, adentra o quarto e deposita um enorme buquê de lírios que espalham seu perfume inconfundível pelo ar. Ela sorri. Automaticamente agradece e não sabe por que motivo não consegue tirar os olhos das flores. Observa, tenta decifrar porque elas lhe são tão agradáveis, tão familiares. Aspira o perfume mais de perto e encontra um pequeno envelope azul. Ela abre o envelope com mãos trêmulas. Um medo repentino toma conta do seu peito e ela desdobra o papel cuidadosamente. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ela lê e relê o pedaço de papel incrédula. Sem forças, ela o deixa cair e olha para as flores como se elas pudessem mudar tudo.Como se aqueles lírios pudessem espalhar sua beleza e perfume em seu ser despedaçado.Como se eles pudessem colar os pedaços do quebra-cabeças e formar algo inteiro novamente.
Por não suportar mais a dor ela deita-se no chão e se encolhe. Recolhe-se, e sente toda miséria, todo sofrimento de sua alma, toda a sua impotência, todo o vazio que a ausência dele deixou. Dói demais e ela implora para que a ferida cicatrize, que tudo passe. Ela tenta saber onde está, quem ou o que sobrou de tudo. Ela não sabe quanto tempo se passou, mas o tempo não importa. Não há fome, nem sede.
Só a dor, o sofrimento, e o frio... Ah, o frio, cada vez pior, mais penetrante, mais presente, mais senhor de si. Ela tenta, mas não lhe é mais possível se mover. Ela já não quer, ou não sente, ou deseja mais nada. Ela apenas aguarda e sofre. E sente o que lhe foi sempre conhecido, familiar, de certo modo só seu, certo, presente, marcante: a solidão, o vazio... O azul, ah, o azul... Ela gostaria de se lembrar do azul, mas não lhe é mais permitido.
Seus pensamentos, estes sim estão livres, voam, sonham, vivem, realizam, erram, riem, persistem, sobrevivem, acreditam, como ela já não pode, como ela jamais poderá. Num tempo em que ela já não pode voltar.
Mais batidas. Mais barulho. E de repente um som que lhe é conhecido e parece aquecer tudo e fazer tudo brilhar... e num último esforço ela abre os ouvidos e os olhos . E ouve e vê. Mas não acredita...

(...continua)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

De lírios - parte II

(continuação da parte 1...)

Nada se movimentava, nada acontecia. Por segundos sem fim, o mundo havia parado.
Ela já não sabia o que fazer, para onde ir, para onde olhar. Parece ouvir algo, mas não sabe ao certo se imagina, ou se realmente ouve. Parecem passos. Sem pressa, determinados...

Num gesto automático, ela se vira e fixa o olhar sem vida num ponto distante.O ponto se aproxima e vira sombra. Ela apenas observa. A sombra se transforma em vulto e ela sente frio. Junto ao vulto a neblina se torna densa, pesada, compacta... Quase sólida.

O vulto se aproxima. Ela treme. Estremece. E percebe que ironicamente a sensação de calafrio, de pavor, é melhor do que nada. Por instantes, a dor se vai. Dissipa-se.
Ela aperta os olhos, tenta enxergar em meio à neblina o vulto que se aproxima...

Mais e mais perto. Mais e mais frio. Tremores. Temores. E agora ela pode sentir o ar congelando à sua volta. O vulto movimenta-se ao redor dela como quem estuda o inimigo, reconhece o terreno de batalha. Ele dá voltas e mais voltas incessantes. Ela se sente tonta e num esforço superior às próprias forças, fixa o olhar no vulto. Não percebe formas, apenas um par de olhos azuis que faíscam em meio à bruma. Ela segue os olhos, agora curiosa, mas está cada vez mais frio, mais gélido, mais silencioso. Ela se sente fraca. Tenta continuar de pé, tenta fazer com que as palavras saiam, mas é impossível. Ela mergulha no azul. Azul profundo. Azul cruel.

Ela mergulha mais e mais no azul sem fim, e se esquece de tudo. O azul a envolve, a domina, e ela já não sente mais frio. Não vê mais nada.

“Dna. Selma? A senhora está bem? ” ela ouviu sons que pareciam vir em sua direção. Sua visão turva foi se clareando e ela pode divisar um rapaz, provavelmente nos seus dezessete anos, vestido de forma exótica, quase sem cabelos, se dirigindo a ela numa língua estranha. Tudo ao seu redor não fazia sentido. Onde era aquele lugar? Percebeu-se sentada e a sua frente podia ver uma caixa que projetava uma forte luz, como um espelho que, em vez de mostrá-la, exibia o retrato de um lírio branco. Nas mesas, muitos papiros, brancos como ela jamais havia visto. Sons vinham de todos os lados. Metálicos, como se ela estivesse em uma ferraria. A claridade do sol em uma janela distante contrastava com a claridade branca que a envolvia.

Será que ele havia sido capaz de fazer isso com ela? Ela se ouviu dizendo palavras que não conhecia, mas, que ao mesmo tempo, eram tão parte dela: “Estou bem, Alexandre. Vamos, volte ao trabalho.” Nada. Não podia sequer lembrar o lugar onde ela havia crescido e de onde jamais poderia ter saído. A maldição, ela se lembrou. Será que ele...? Não. Enquanto pensava essas coisas, sentia com as mãos o próprio corpo. Olhava para as pontas dos cabelos, que haviam perdido sua negritude quase azulada e adquirido uma tonalidade de amarelo-girassol.

(continua...)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

De lírios - Parte I

Com tenho estado meio "desinspirado", resolvi trazer à luz algo que foi feito e há muito está guardado. Trata-se de um longo conto escrito a quatro mãos com minha querida amiga S 4 Sunshine. O modo de fazer era simples, cada um escrevia um parágrafo e mandava para o outro, esse parágrafo era o mote de onde se deveria partir. Ele está todo pronto, mas preferi colocá-lo aqui aos poucos, pois dizem que o que é bom, deve ser vagarosamente saboreado. O título fui eu quem dei, a partir de elementos do próprio conto.

***

Ela se levantou sem pressa, sem querer, olhou à sua volta e se viu em meio há uma densa neblina. Esfregou os olhos como quem acredita estar acordando de um pesadelo, sentiu uma leve brisa gelada passar por seu rosto de marfim e estremeceu...
Incrédula, olhou à sua volta novamente, e se deu conta de que não era sonho, pesadelo, ou quem dera uma ilusão...
Sim, ele se fora, como havia dito um dia que iria. Sem prenúncios, sem despedidas, sem lágrimas. Era tempo de ser. Ela, ao perceber o inevitável, caiu de joelhos e contemplou o infinito vazio e gélido.
Ela abriu seu peito e gritou o mais alto possível, para que não morresse de dor. Mas nenhum som se ouviu. Caminhou lentamente até um campo de lírios e ali o observou longe, alto, decidido. Ela sabia; sempre soube. Desde o dia em que ele viera. Desde o minuto em que ele chegara.
O futuro seria como tinha sido escrito. Nada mais... nada menos.Nada importava agora.
Ele se fora. Era só. Um último olhar sem esperança, mais por hábito do que por razão, e ela vê ao longe, uma silhueta que lhe era conhecida. E é só. Nada há por vir. Nada que faça sentido. Se pudesse, ela derramaria lágrimas, sentiria desespero. Mas ela já não pode.
Então, ela apenas contempla o bater de asas, cada vez mais distante... cada vez mais silencioso. Cada vez mais cruel. Cada vez mais sombrio.....
E ele se afasta, primeiro em pensamento, depois a cada farfalhar de asas, ganha altura,
ganha confiança. Ela sabia. Ela sempre soube. Coragem, não olhe pra trás. Ele sente o
calor do sol chicoteando sua face, folhas ao vento buscando impedi-lo de continuar. Ele
passa a mão na testa para afastar a franja que lhe cai e sente o choro quente escorrendo
pelas bochechas. Mas por que ele chora? Era o que estava escrito. Há um silêncio, que se
transforma num grito. Num ímpeto ele decide olhar pra trás, mas esse ímpeto é varrido
pelo vento que já se faz cada vez mais veloz a cada bater de asas.
Ela vê que ele vira apenas um ponto distante, uma nova estrela, a primeira a despontar no
céu de ocaso. Ela continua lutando para que as lágrimas encontrem saída de seu peito, mas
ela não consegue, o aperto aumenta, a pressão, mas por mais que se esforce, seus olhos
continuam secos e vão perdendo a cor. Ela já se sentiu assim antes. Morta. Nem o doce
cheiro da grama, nem o céu vermelho do por do sol consegue arrancar dela algum sorriso.
Ou qualquer outra sensação. Seus lábios se movem, como se pedras tivessem sido atiradas
no espelho d'água que era seu semblante. Morta. Morta, ela repete silenciosamente.
Ouve um barulho, vindo de trás de si. Ali onde havia a árvore da sombra fresca. Ela prevê
que algo extraordinário está para acontecer. Ela se vira lentamente, experimentando mover
um músculo de cada vez...

(continua)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Direção

Esse poema foi fruto de um jogo estético a quatro mãos. Fomos brincando com as estrofes, rimas, mudando o que o outro fez. Eis o resultado. Valeu Rodrigo?

Corro a toda velocidade naquela direção. Chove.
E a chuva escorre na minha face como lágrimas de fora pra dentro.
Pra que a pressa? Não há para onde fugir.
A noite parece chegar igual pra todo mundo.

A cada passo meu que ressoa na escuridão,
Me sinto mais forte.
E como força fosse luz, claridade.
Preto e branco se fundindo, dando vida a uma nova verdade.

Cínico? Me jogo na vida e crio um novo amanhã.
Passo por trilhas, montanhas, desertos e acabo aqui, nesta cidade.

Já não há bem ou mal, já não me restam escolhas e, aos poucos, sinto a força
Se esvaindo. Desvairada.
Pego o metrô, que já não dá mais pra andar.
A próxima é a Clinicas, eu vou me encontrar. Ou você?

Aqui é Paris ou aqui é Madrid? Aqui e acolá. Pro lado de lá?
A pé, sobre trilhos... importar, nunca importou.
Mas sigo. Você não seguiria?
Face fora, foge força. Em frente e enfrente!

Não há mesmo para onde correr.
Naquela direção só restaram as marcas da chuva que um dia passou.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Se vou

Às vezes, tentei desenvolver uma nova forma de escrita. A escrita a 4 mãos. Foram diversas tentativas de um exercício interessante. Veja lá: eu escrevo um trecho, mando ele pra outra pessoa, que vai lê-lo inspirar-se e continuar o jogo. O texto vai crescendo e indo pra lugares inimaginados, você tem que desvendar problemas colocados, criar novos, ir e vir, experimentar coisas que jamais escreveria. Muito divertido, não é? Mas houve um agravante. Não consegui até hoje terminar nenhum dos 4 textos começados. Bom, um foi terminado, mas ainda não passou pela estruturação final. Creio que logo ele estará aqui. Ele será talvez a única experiência bem sucedida. Mas os outros textos tinham seu valor, e eu não sou homem de ficar começando e largando na metade. Decidi que se o outro partido renega a escrita, como diz o ditado, "quando queres algo bem feito (ou pelo menos feito), faça você mesmo".

O texto que segue é fruto do que surgiu quando fui escrever com o Rodrigo. O que foi dele, salvo algumas pequenas mudanças, está em itálico. O resto é meu. Espero que ele goste do final (risos).


***

Eu abro os olhos, mas a escuridão persiste. Tento me localizar. Não vejo nada. Sinto frio. Estou no chão. Sento-me sem conseguir enxergar as minhas mãos que coloco a poucos centímetros do meu rosto. Toco meu rosto. Sinto uma aderência estranha Sangue. Meu? Meu nariz dói. Mas não me lembro de ter batido meu nariz. Não me lembro de nada. Escuto ao longe um som de metal chocando-se contra metal. Parece que alguém está martelando algo. Um som repetitivo, ritmado. Ping... ping... ping...

Vou tentando sentir as outras partes do meu corpo, e as sensações vão me invadindo, como se abrir os olhos tivesse sido empurrar a primeira peça de uma fileira de dominós em pé. Um derrubando o outro, uma sensação sobrepondo-se a outra, sobrepondo-se e complementando. Frio. Estico o braço e tento tatear numa cegueira desesperadora, a saída dessa escuridão desconhecida. Flashes atravessam minha mente. Começo a me lembrar. Mas me lembro do sonho. Um céu azul, de um azul que eu nunca havia visto antes. Um dia modorrento, abafado. Nenhum som, exceto o de meus passos nessa estrada. Mas que estrada é essa? Vejo uma menina. “Olá!” diz ela numa voz que destoa de sua aparência pueril e delicada. Parece uma velha falando. “Eu sou Alice e bem-vindo ao país da maravilhas!” E uma risada que parecia carregar toda a malícia do mundo. A risada do diabo em pessoa, naquela pequena loira ali parada na minha frente naquela estrada. E a escuridão.

Luz? Alguém disse luz? Não, ninguém disse, fui eu quem a acendi. Aproveito e olho no espelho, mas já não me enxergo mais. O tempo parece ter levado de mim o que nunca descobri realmente ter. Quando ando pelas ruas sorrio, tentando despertar nas pessoas alguma curiosidade. Ninguém vê. Corro para ficar suado, e ainda assim ninguém se pergunta por que nesse dia de frio a água corre em bicas pelo meu corpo. O que foi que aconteceu comigo? Simulo chorar. Tentei comover, mas nem a senhorinha com o guarda-chuva parece se importar. Quando foi a última vez que vi minha sombra refletida no chão? Quando foi a última vez de que gostei da imagem envergonhada no espelho? Não me lembro. Não agora. Alguém, por favor, apague essa maldita luz.

Mas meu braço não responde. Sinto as veias das minhas têmporas latejarem e um fio de suor escorrendo pela nuca, serpenteando espinha abaixo. Sinto um gosto amargo na boca e fico tentando lembrar a última coisa que comi. Sinto minha bexiga doendo e mijo displicentemente respingando no chão. O mijo quente não pára. Quantas cervejas tomei ontem? A imagem da loira dos meus sonhos, era ela que segurava um guarda-chuva? Tenho que lembrar nunca mais tomar ácido de novo. “É melhor que bala, mano” ele disse. Mas aqui estou eu, com esse gosto de podre na boca, minha cabeça quase explodindo, essa luz me cegando e minha imagem distorcida no espelho. Minha mãe já dizia que meu reflexo refletia em tudo o que eu fazia, e tudo o que eu fazia refletia em mim. Que bom que já não tenho que ouvir mais esses absurdos existencialistas da velha cotidianamente, e sim, a segura uma vez por mês que lhe agracio com minha presença pelo telefone. O que vale mais? Sofrer um pouquinho a cada dia, ou muito em ocasiões particulares? Apago a luz e penso como cheguei em casa. Com os olhos fechados, de forma a suavizar a dor, vou sentindo o caminho de volta a minha cama, mas ao estender a mão para afastar os lençóis, percebo que há algo ali.

Fecho os olhos apesar da escuridão. Uma cena se forma na minha mente. Não faz muito tempo. Naquela época meu pai ainda costumava chegar tarde do trabalho. Costumava ser por volta das 11 da noite quando eu e meus irmãos ouvíamos a campainha. Embora ele não fosse visita, e nunca era, pois a casa era dele mesmo, meu bom pai sempre fazia questão de tocá-la. Ele tocava a campainha e nós corríamos para a cozinha para ver o montão de delícias que ele nos trouxera. Mas nesse dia foi diferente. Diferente não só porque havia chovido durante todo o dia, mas diferente porque seus olhos pareciam ter gritado durante as últimas horas, num desespero latejante e comovente. Ele nos olhou e sorriu com o canto da boca. Havia mesmo algo errado naquele sorriso. Voltamos para a sala e nos amontoamos entre as dezenas de cartas com números e caras engraçadas. Depois de alguns minutos, escutei o que havia acontecido. Ele havia tirado uma remessa errada de um pedido lá da fábrica de parafusos em que trabalhava. O transtorno tinha gerado uma dívida imensa para a companhia que não via outra razão senão demiti-lo. Seja lá o que isso significasse, estávamos desempregados. Naquela época, papai já andava meio estranho com a morte do nosso avô. Ele não reagia bem desde aquela tarde de outono no hospital, quando recebemos a notícia de que vovô não reagira ao tratamento e havia falecido. Agora, pensando melhor, havia um par de meses que meu pai não nos trazia os mimos açucarados de sempre. Ele realmente não andava bem. Logo depois que saí do banho, percebi que papai deixara um embrulho em cima do armário. Lembro até hoje daquela cena. Fiquei curioso. Depois que todos haviam dormido, fui à cozinha. Desembrulhava calmamente aquelas folhas amassadas de jornal, que traziam uma cobertura especial da vinda de Marley O’Neill ao Brasil, quando quase caí da cadeira. O que aquilo significava? Por que meu pai o havia enrolado daquela forma? Fui direto para cama, soluçando de espanto. Longos anos se passaram. Dez ou doze anos depois, mesmo depois da morte do meu pai, o embrulho continuava ali. Foi aí que um dia decidi dar vida a ele. O estranho é que eu não me lembrava de tê-lo deixado sob o lençol. Alguém havia estado ali.

Deitei-me, convulsionado por essa mescla de pensamentos, memórias da minha infância, meus pais, bem eu que estive fugindo da minha família nos últimos cinco anos e tinha que lutar com todas as minhas forças pra aguentar e sair ileso de eventos como natais e aniversários (já que para os velórios eu sempre tinha uma boa desculpa). Seria por meu relógio de cabeceira piscar cinco minutos passados das onze? Seria o barulho de chuva que ainda caia do lado de fora da janela? Seria um repentino medo da presença que espreitava nas sombras, mas que eu não podia ver, ou sacar se era amigo ou inimigo? Por um momento senti que o ar parecia eletrizado e tudo se movia mais devagar. Estaria eu ficando louco? Encostei as costas da mão no embrulho e mesmo estando ele envolto em folhas amassadas de papel, podia sentir o frio metálico e sua dureza. Fechei a mão abraçando aquele objeto, sentido seu formato, seu tamanho. Senti o coração acelerar, e ao mesmo tempo, não pude evitar que uma gargalhada explodisse no silêncio do meu quarto. Respirei fundo, assustado pela minha própria gargalhada, e uma espécie de onda de fúria e vergonha me invadiu o íntimo. Quase que incontrolavelmente senti meu pau ficando duro, mas era uma reação tão díspar, alheia ao momento, errada. Que tipo de magia negra havia naquele objeto tão odiado, naquele falo fundido que podia me excitar? Uma nova onda de culpa e remorso. Imagens começavam e se formar na penumbra, assim que a luz do luar invadiu de repente a minha janela. Já parara de chover. Abri os olhos e ele estava ali.

Lembrava dele mais baixo, menos careca. Era como se o Mestre dos magos tivesse feito uma plástica e estivesse com a cara do meu pai. Tremi, de uma forma incontrolável. Abracei a arma, enrolando melhor o papel, não queria que ele soubesse o que estava ali comigo, apesar da quase certeza de que ele era uma miragem, uma projeção psicológica que tentaria me impedir de fazer o que eu precisava fazer. Quem iria quebrar o silêncio primeiro? O silêncio de décadas? Ele me olhava profundamente. Nada transparecia. Raiva, pena, compaixão, nada! Na luz do luar, éramos só nós dois enquanto o resto do mundo parecia dormir. Parecia dia. Achei que ele fosse gargalhar como a menina do meu sonho. Ou era realidade? Ainda sentia no ar um perfume que não era o meu e não emanava daquela aparição. Era um perfume de mulher. Lembrei-me da senhora da sombrinha. Por que ela parecia tão triste? Por que eu não me dispus a ajudá-la? Por que ela voltava a povoar a minha mente num momento tão delicado como esse, no qual minha vida estava por um fio?

Fechei os olhos e fiz algo que não fazia há anos. Orei. Fiz uma oração sincera, como se minha vida dependesse dela. Tentei entrar em contato com o divino, com o universo, com o grande espírito, que está lá, no final de todas as nossas contradições. Queria chorar e não conseguia. Não havia chorado quando tinha perdido o meu emprego. Não tinha chorado quando minha Marilyn Monroe tinha ido dançar sua dança em outra freguesia. Nem quando minha mãe morrera. Nem quando papai... abro os olhos e estou sozinho novamente. A presença ainda ecoa no quarto, mas a escuridão reina. Deve haver uma nuvem cobrindo a lua. Deve haver uma nuvem cobrindo a minha vida. Me sinto solitário e vazio. Mas me sinto forte. Sinto um impulso momentâneo quando percebo minha fortaleza. Quero levantar e quebrar tudo, jogar todas as minhas coisas contra a parede. Quero fazer buracos na parede na porrada. Quero queimar e cuspir em tudo. Penso em rezar de novo, como a vovó havia me ensinado, mas não consigo.

Desembrulho o pacotinho. Ela sorri para mim. Coloco o cano frio e metálico na minha boca. Bum, e tudo passa, eu fico em paz. Só uma apertadinha, um leve movimento dos dedos, e todos os meus problemas estão solucionados. Não tem que procurar mais emprego, nem me humilhar diante de ninguém, nem sofrer por amor, ou fingir que eu amo. Puxo o gatilho. O barulho me dói nos ouvidos. Parece que eu nunca o ouvi antes. Como acontece sempre nesses dez anos. Respiro fundo e sinto que finalmente consigo chorar. Choro e me sinto alegre. Mas não consigo rir com aquele cano enfiado na minha boca. Mamãe, me espere, ou melhor, vem aqui buscar o seu filhinho. Ouço de novo a risada e vejo de novo o guarda-chuva. Despedido. Sozinho. Adeus. Click.

O som seco do gatilho me dói nos ossos. Tiro o cano da minha boca e seco a ponta da arma com um pedaço do lençol. Por que eu nunca lembro de comprar nenhuma munição? Tanto tempo, tantos anos tentando, e sempre falta a munição. Cuspo no pia o resto de saliva que não consigo engolir. Me matei mais um pouquinho hoje. Amanhã volto a vida de morto-vivo. Embrulho a pistola nos mesmos pedaços amarelados de jornal. Guardo de novo na gaveta. È como um ato religioso, repito cada movimento da mão, do corpo. Um dia alguém vai me olhar. Um dia eu vou ser livre. Vou comprar balas bem gostosas, docinhas, que derretem na boca. Mas hoje não. Está tarde. A lua está alta. Amanhã.